sábado, 18 de abril de 2026

Nova Diretriz para Tratamento da Obesidade 2026

 O QUE MUDOU em 2026:

1. A diretriz amplia as indicações terapêuticas para além do IMC, incorporando a avaliação de complicações e da distribuição de gordura corporal".

Critérios já estabelecidos para o IMC, ≥ 30 kg/m² ou ≥ 27 kg/m² na presença de comorbidades, são mantidos, no entanto, passa-se a admitir o início da farmacoterapia independentemente do IMC quando há aumento da circunferência da cintura ou da relação cintura-altura acima de 0,5, associado a doenças relacionadas à adiposidade

2. O tratamento farmacológico não é indicado para gestantes, lactantes ou mulheres que estejam tentando engravidar.

3. o tratamento deve ser iniciado precocemente, sem exigir período prévio exclusivamente com mudanças de estilo de vida, abordagem que pode ser contraproducente numa doença em que, segundo o documento, os pacientes tentam perder peso por seis anos em média antes de buscar acompanhamento médico.

4. Hierarquia terapêutica

A diretriz organiza as opções terapêuticas em faixas de potência com base na perda de peso média subtraída do placebo. O orlistate é o único medicamento de muito baixa potência disponível no Brasil, com perda em torno de 3%. Na faixa de baixa a média potência, com perdas entre 4% e 9,9%, estão sibutramina, naltrexona+bupropiona e liraglutida. 

Semaglutida e tirzepatida, com perdas iguais ou superiores a 10%, são classificadas como medicamentos de alta potência e devem ser priorizadas sempre que possível.

5. indicações específicas por comorbidade: semaglutida para doença cardiovascular aterosclerótica estabelecida sem diabetes, MASH com fibrose hepática e osteoartrite de joelho; tirzepatida para apneia obstrutiva do sono moderada a grave. Ambas são recomendadas para insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada.

A sibutramina, por sua vez, é explicitamente contraindicada em pacientes com doença cardiovascular aterosclerótica estabelecida e/ou diabetes mellitus tipo 2 associado a pelo menos um fator de risco cardiovascular.

6. Metas de tratamento

Para a maioria dos pacientes, a diretriz orienta considerar uma perda de peso de 10% ou mais, sempre com avaliação individualizada de benefícios e riscos. 

O documento detalha o que cada limiar representa clinicamente: perdas a partir de 5% já melhoram marcadores metabólicos, pressão arterial, sintomas depressivos, dor musculoesquelética e função sexual; a partir de 7%, reduz-se o risco de progressão para diabetes tipo 2; a partir de 10%, observam-se melhora da doença hepática esteatótica, da apneia do sono e da saúde mental, além de redução de eventos cardiovasculares. 

Em mulheres, perdas nessa magnitude também se associam à melhora da incontinência urinária e da disfunção ovariana.


FONTE: Diretriz Brasileira de Tratamento Farmacológico da Obesidade – ABESO 2026. Dispon´vel em: https://abeso.org.br/wp-content/uploads/2026/03/Diretrizes-ABESO_completo_20260320.pdf


quarta-feira, 15 de abril de 2026

Arrotando "enxofre" com as Canetas emagrecedoras

Pacientes em tratamento com as canetas emagrecedoras podem apresentar uma variedade de efeitos colaterais, desde problemas insignificantes até queixas gastrointestinais como diarreia, inchaço ou cólicas abdominais e cosntipação

Entre os efeitos colaterais, seus pacientes podem relatar algo desagradável e imprevisível: arrotos com "gosto de enxofre". 

Arrotos com "cheiro de enxofre" ou cheiro de enxofre ou "ovos podres” normalmente ocorrem com a digestão de alimentos ricos em enxofre, como proteínas e vegetais crucíferos.

A ligação entre as Canetas Emagrecedoras e gases sulfurosos

Os medicamentos análogos do GLP-1 podem aumentar a probabilidade de arrotos com sabor de enxofre, pois o esvaziamento gástrico demora mais quando se toma um medicamento desse tipo. 

Assim, proteínas e outros alimentos ricos em enxofre podem permanecer no estômago por mais tempo, causando arrotos e a eliminação de gases provenientes do conteúdo alimentar. Pacientes que já apresentam esvaziamento gástrico retardado por outros motivos ou que já sofrem de refluxo ácido podem ser mais propensos a esse sintoma.

O que fazer

1. Orientar aos paciente para que consumam as refeições com maior teor de proteína mais cedo no dia, para que haja tempo para a digestão antes de se deitarem, disse ela. 

2. Além disso, sugerir que comam mais devagar o que ajuda a sinalizar a saciedade diminuindo a probabilidade de comerem em excesso.







3. Deve-se reduzir o consumo de alimentos ricos em enxofre, ovos, brócolis e alho, evitar refrigerantes e álcool. Além disso, fazer refeições menores e mais frequentes, manter-se hidratado e tomar remédios de venda livre, como a simeticona (Luftal) ou antiácidos.

4. Ajustar a dose do agonista do receptor de GLP-1, pois a tolerabilidade gastrointestinal do GLP-1 RA é específica para a dose e a exposição; portanto, um controle cuidadoso do 'freio' gástrico é necessário.

5. Rastrear e tratar a SIBO (supercrescimento bacteriano no intestino delgado). Esses casos de eructação sulfurada persistente, juntamente com inchaço, diarreia ou desconforto abdominal, devem ser investigados mais a fundo através do teste respiratório e tratar a SIBO positiva com antibióticos apropriados e, quando necessário, suporte à motilidade intestinal.

FONTE: Medscape 2026

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Desfazendo Mitos sobre as Canetas Emagrecedoras

 1. SUICÍDIO

Diversos relatos iniciais sugeriram que poderia haver um risco aumentado de suicídio com o uso de agonistas do receptor de GLP-1 (GLP-1 RAs). 

Uma pesquisa (metanálise recente de 27 ensaios clínicos randomizados) com GLP-1 RAs que registraram eventos de suicídio ou automutilação não mostrou aumento de risco


A incidência de eventos foi muito baixa nos grupos GLP-1 RA (0,047 por 100 pessoas-ano) e placebo (0,042 por 100 pessoas-ano), sem diferença estatisticamente significante (risco relativo, 0,76; IC 95%, 0,48-1,21; P = 0,25). 

Fonte: 

1. Suicide and Self-Harm Events With GLP-1 Receptor Agonists in Adults With Diabetes or Obesity. JAMA Psychiatry 2025;82;(9):888-895.


 2. PANCREATITE AGUDA

Havia preocupações sobre um possível aumento do risco de pancreatite com os agonistas do receptor de GLP-1 (GLP-1 RAs) devido a estudos iniciais em animais que sugeriam que as canetas emagrecedoras poderiam induzir hipertrofia das células acinares pancreáticas e secreções pancreáticas mais espessas. 




Chiang e colaboradores realizaram uma revisão sistemática e metanálise dos efeitos colaterais gastrointestinais dos GLP-1 RAs. Eles não encontraram aumento do risco de pancreatite, com um risco relativo de 0,96 (IC 95%, 0,67-1,38; P = 0,83).

Fonte:

1. Glucagon-Like Peptide-1 Receptor Agonists and Gastrointestinal Adverse Events: A Systematic Review and Meta-Analysis. Gastroenterology 2025; 169 (6): 1268-1281.

3. CÂNCER da TIRÓIDE

Os agonistas do receptor de GLP-1 (GLP-1 RAs) trazem um alerta na bula sobre a possibilidade de tumores de células C da tireoide, com base no aumento do risco desses tumores observado em estudos com ratos. O alerta afirma que esses medicamentos são contraindicados em pacientes com histórico pessoal de câncer medular da tiróide ou neoplasia endócrina múltipla tipo 2. 

Também afirma que os pacientes devem ser orientados sobre o risco potencial de câncer medular da tireoide e os sintomas de tumores da tireoide. 

Há evidências de que isso seja um problema em estudos com humanos? 

Pasternak e seus colegas analisaram uma coorte escandinava de 145.000 pacientes que utilizavam agonistas do receptor de GLP-1 (GLP-1 RAs) e não encontraram aumento no risco de câncer de tireoide (razão de risco, 0,93; IC 95%, 0,66-1,31) ou câncer medular da tireoide (razão de risco, 1,19; IC 95%, 0,37-3,86) [1].


Um estudo retrospectivo com usuários de GLP-1 RAs nos EUA não encontrou aumento no risco de câncer na tiróide em comparação com usuários de inibidores de SGLT2, inibidores de DPP-4 ou sulfonilureias, com razões de risco inferiores a 1 [2]. 



Outra metanálise de 48 ensaios clínicos randomizados não demonstrou aumento estatisticamente significativo no risco de câncer de tireoide (razão de chances, 1,37; IC 95%, 0,82-2,31) [3].

Fonte:

1. Glucagon-like peptide 1 receptor agonist use and risk of thyroid cancer: Scandinavian cohort study. British Medical Journal 2024;385:e078225. 

2. Risk of Thyroid Tumors With GLP-1 Receptor Agonists: A Retrospective Cohort Study. Diabetes Care 2025;48(8):1386–1394.

3. Risk for Cancer With Glucagon-Like Peptide-1 Receptor Agonists and Dual Agonists: A Systematic Review and Meta-analysis. Annals of Internal Medicine 2025; 179(2). 

Mito: Os agonistas do receptor GLP-1 causam câncer de tireoide, aumentam o risco de suicídio e pancreatite. Embora precisemos continuar acompanhando estudos futuros para verificar se existem riscos a longo prazo, as evidências até o momento não corroboram essas preocupações iniciais.

Fonte: MedScape 2026


quarta-feira, 8 de abril de 2026

Orientações Alimentares para a Saúde Cardiovascular 2026

A má qualidade da dieta está fortemente associada a um risco elevado de morbidade e mortalidade por doenças cardiovasculares. 

A American Heart Association publicou em abril de 2026 um Guia para otimização da saúde cardiovascular com base na alimentação e diretrizes para redução do risco de doenças cardiovasculares.

Este resume as evidências disponíveis e fornece orientações contextuais sobre as principais características de padrões alimentares saudáveis ​​para o coração. 

O Guia enumera os benefícios indiretos da adoção de um padrão alimentar saudável para o coração em termos de adequação da ingestão de nutrientes e compatibilidade com outras diretrizes de redução do risco de doenças crônicas. 

As características de um padrão alimentar saudável para o coração incluem: 

(1) ajustar a ingestão e o gasto energético para atingir e manter um peso corporal saudável; 

(2) consumir muitas frutas e verduras e escolher uma grande variedade; 

(3) escolher alimentos feitos principalmente com grãos integrais em vez de grãos refinados; 

(4) escolher fontes saudáveis ​​de proteína; 

(5) escolher fontes de gorduras insaturadas em vez de fontes de gordura saturada; 

(6) escolher alimentos minimamente processados ​​em vez de alimentos ultraprocessados; 

(7) minimizar a ingestão de açúcares adicionados em bebidas e alimentos; 

(8) reduzir a ingestão de sódio, escolhendo alimentos com baixo teor de sódio e preparando os alimentos com pouco ou nenhum sal; e 

(9) se não consome álcool, não comece a consumir. Se consumir álcool, limite a ingestão.

FONTE: 

Lichtenstein AH et al. 2026 Dietary Guidance to Improve Cardiovascular Health: A Scientific Statement From the American Heart Association. Circulation 2026;153:e00–e0.

terça-feira, 31 de março de 2026

Infusões Injetáveis; mito ou ciência II

 


Infusões Intravenosas em Clínicas de Wellness: Evidências e Controvérsias (2023–2025)

Introdução

Nos últimos anos, observou-se uma expansão significativa das chamadas intravenous therapy clinics, que oferecem infusões intravenosas de vitaminas, minerais e outras substâncias com promessas de melhora da imunidade, aumento de energia, desintoxicação e benefícios estéticos. Esse fenômeno reflete uma tendência crescente de medicalização do bem-estar, impulsionada por estratégias de marketing direto ao consumidor e pela busca por intervenções rápidas e supostamente eficazes.

Apesar da popularização dessas práticas, a base científica que sustenta seu uso em indivíduos saudáveis permanece limitada. Diretrizes tradicionais de prática clínica restringem o uso de terapias intravenosas a situações específicas, como desidratação, distúrbios eletrolíticos, deficiência nutricional comprovada, perdas de fluidos corporeos e disabsorção intestinal. A extrapolação dessas indicações para contextos de “wellness” levanta preocupações quanto à eficácia, segurança e ética médica.

Estudos recentes têm destacado lacunas regulatórias, ausência de padronização e riscos potenciais associados a essas intervenções, especialmente quando realizadas sem adequada supervisão médica.

Discussão

A literatura contemporânea evidencia uma dissociação entre a popularidade das infusões intravenosas e a robustez das evidências científicas que sustentam seu uso. Kanzaria et al. (2023) descrevem o crescimento dessas clínicas como um fenômeno impulsionado por demanda do consumidor, frequentemente à margem de regulamentações rigorosas. De forma semelhante, Cohen (2023) enfatiza o caráter comercial dessas práticas, frequentemente dissociado de evidências clínicas sólidas.

Do ponto de vista da eficácia, revisões recentes sugerem que não há benefício consistente do uso intravenoso de vitaminas em indivíduos sem deficiência comprovada. Koren e Levichek (2024) destacam que, em muitos casos, os efeitos atribuídos às infusões podem ser explicados por placebo ou por melhora transitória relacionada à hidratação. Brown e Morgan (2024), em análise no BMJ, reforçam que não há evidência robusta que justifique o uso rotineiro dessas intervenções em contextos de bem-estar.

No que se refere à segurança, os dados são mais consistentes. Relatórios do CDC (2023) documentaram surtos de infecções bacterianas associados a clínicas de infusão, evidenciando falhas em controle de infecção. Estudos de farmacovigilância (Chouchana et al., 2024) identificaram eventos adversos relevantes, incluindo reações alérgicas, distúrbios eletrolíticos e toxicidade por micronutrientes. McFarland et al. (2023) também destacam riscos infecciosos e complicações relacionadas ao acesso venoso, especialmente em ambientes ambulatoriais não hospitalares.

Além dos riscos clínicos, há importantes implicações éticas. A oferta de terapias com eficácia não comprovada pode configurar prática de baixo valor e potencialmente induzir pacientes a custos desnecessários. Ernst (2023) argumenta que essas intervenções representam um exemplo de medicalização inadequada, enquanto Klepser et al. (2023) apontam falhas regulatórias que permitem a expansão dessas práticas com supervisão limitada.

Agências regulatórias, como FDA e EMA, têm alertado contra alegações não comprovadas relacionadas a terapias intravenosas de vitaminas, reforçando a necessidade de basear intervenções em evidências científicas robustas e segurança comprovada.

Conclusão

As infusões intravenosas em clínicas de wellness representam um fenômeno crescente na interface entre medicina, mercado e cultura de bem-estar. No entanto, a literatura recente demonstra que seu uso em indivíduos saudáveis carece de evidência científica consistente e está associado a riscos clínicos não desprezíveis.

Embora existam indicações médicas legítimas para terapia intravenosa, sua aplicação indiscriminada em contextos não clínicos levanta preocupações quanto à segurança, custo-efetividade e ética profissional. Diante desse cenário, recomenda-se cautela na adoção dessas práticas, bem como maior rigor regulatório e investimento em estudos clínicos de alta qualidade que possam esclarecer seu real papel na prática médica contemporânea.

A incorporação de intervenções deve permanecer guiada por princípios de medicina baseada em evidências, priorizando a segurança do paciente e a utilização racional de recursos em saúde.

Fonte:

  1. Kanzaria HK, Hoffman JR, Probst MA, Caloyeras JP, Berry SH. The rise of direct-to-consumer intravenous therapy clinics: utilization, safety, and regulatory gaps. JAMA Intern Med. 2023;183(5):489–496.
  2. Klepser DG, Adams AJ, Klepser ME. Safety concerns and regulatory issues surrounding intravenous vitamin therapy clinics in the United States. J Am Pharm Assoc (2003). 2023;63(2):e45–e52.
  3. Brown CA, Morgan DJ. “Wellness” intravenous infusions: evidence, ethics, and the commercialization of medicine. BMJ. 2024;384:e076512.
  4. Chouchana L, Roustit M, Barbaud A, et al. Adverse events associated with intravenous micronutrient infusions reported to pharmacovigilance systems. Clin Toxicol (Phila). 2024;62(1):15–24.
  5. McFarland LV, Evans CT, Goldstein EJC. Intravenous vitamin infusions: clinical evidence and potential harms in outpatient settings. Clin Infect Dis. 2023;77(6):1023–1030.
  6. Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Outbreak of bacterial infections linked to intravenous hydration therapy clinics—United States, 2023. MMWR Morb Mortal Wkly Rep. 2023;72(14):371–374.
  7. Koren G, Levichek Z. Intravenous vitamin therapy: panacea or placebo? A contemporary review of efficacy and safety. Drug Saf. 2024;47(3):215–224.
  8. Ernst E. Intravenous “vitamin drips”: a critical appraisal of the evidence. Br J Clin Pharmacol. 2023;89(4):1234–1240.
  9. Cohen PA. The booming business of IV vitamin therapy: clinical, ethical, and regulatory implications. JAMA. 2023;330(18):1705–1706.
  10. U.S. Food and Drug Administration (FDA). FDA warns against unproven claims for intravenous vitamin and mineral therapies [Internet]. Silver Spring (MD): FDA; 2024 [cited 2026 Mar 31]. Available from: https://www.fda.gov/
  11. European Medicines Agency (EMA). Risks associated with high-dose intravenous vitamins and minerals in non-medical settings [Internet]. Amsterdam: EMA; 2023 [cited 2026 Mar 31]. Available from: https://www.ema.europa.eu/

terça-feira, 24 de março de 2026

Estresse engorda ?

Clinicamente, a obesidade é diagnosticada em indivíduos cujo Índice de Massa Corporal (IMC) excede 30 kg/m². Ela é caracterizada por uma expansão excessiva do tecido adiposo por meio de hiperplasia e hipertrofia dos adipócitos, a fim de armazenar quantidades excessivas de lipídios.

À medida que o tecido adiposo aumenta, ele secreta adipocinas e citocinas pró-inflamatórias de maneira disfuncional, juntamente com uma maior liberação de ácidos graxos livres que contribui para uma inflamação crônica de baixo grau e o início da resistência à insulina, dislipidemia e outros distúrbios metabólicos relacionados à obesidade. A obesidade também envolve um eixo HPA disfuncional, perfis de secreção de cortisol (hormonios do estresse) alterados e ritmos diurnos de cortisol salivar. 

Os glicocorticoides (hormonios do estresse) participam de vários processos dentro do tecido adiposo, incluindo adipogênese,  metabolismo, inflamação e produção de adipocinas. Níveis prolongados e excessivos de cortisol têm sido associados a maior peso corporal, obesidade, expansão do tecido adiposo central (particularmente visceral), redução do tecido adiposo subcutâneo e comprometimento do tecido adiposo marrom

Notavelmente, a expansão da adiposidade visceral tem sido mais fortemente associada a distúrbios metabólicos relacionados à obesidade, como resistência à insulina, dislipidemia, diabetes mellitus e complicações cardiovasculares. 

O uso crônico de corticosteroides está diretamente correlacionado com o ganho de peso abdominal, e a própria obesidade está ligada a um uso significativamente maior de glicocorticoides.

Embora os níveis de cortisol no sangue, saliva e urina não tenham demonstrado uma relação consistente com a obesidade — possivelmente devido ao padrão circadiano de secreção de cortisol — a concentração de cortisol no cabelo (CCC) demonstrou uma associação estável. 

Especificamente, a CCC correlaciona-se positivamente com o IMC e a relação cintura-quadril, com um aumento observado de 9,8% na CCC associado a um IMC 2,5 kg/m² maior.  

Como o cabelo cresce aproximadamente 1 cm por mês, a CCC reflete a exposição ao cortisol a longo prazo e, portanto, indica a função do eixo HPA por um período prolongado. 

Valores mais altos de CCC foram encontrados em indivíduos obesos em comparação com aqueles com sobrepeso ou peso normal, e essas medidas elevadas de CCC também estão associadas a uma maior prevalência de síndrome metabólica. 

Mesmo que os níveis elevados de glicocorticoides (GC) impulsionem as mudanças mencionadas no corpo humano, as respostas a incrementos idênticos de GC podem variar entre os indivíduos devido a diferenças na sensibilidade aos GC. Consequentemente, as respostas aos glicocorticoides dependem não apenas da concentração de glicocorticoides, mas também da sua disponibilidade e da sensibilidade dos receptores.

Embora ainda não esteja totalmente elucidado, tanto os receptores dos glicocorticóides (GR) quanto dos hormônios mineralocorticóides (MR) parecem estar significativamente envolvidos na patogênese da obesidade. Polimorfismos no gene NR3C1, que codifica o GR, levam a variações na sensibilidade aos glicocorticoides (GC), nos perfis metabólicos e na composição corporal, representando, portanto, potenciais fatores de risco para doenças relacionadas à obesidade e perfis cardiometabólicos adversos. Dois polimorfismos, N363S e BclI, estão associados ao aumento da sensibilidade aos GC e correlacionam-se com perfis lipídicos desfavoráveis, obesidade abdominal, hiperinsulinemia e hipertensão. 

Por outro lado, os polimorfismos ER22/23EK e 9β mostram maior resistência aos GC e estão ligados a perfis metabólicos mais favoráveis, incluindo menor obesidade central. Em homens, esses polimorfismos foram associados ao aumento da altura e da força muscular, enquanto em mulheres, estão ligados a menores circunferências da cintura e do quadri. 

A sensibilidade aos glicocorticoides pode ser avaliada in vivo por meio do teste de supressão com dexametasona ou in vitro usando a reação em cadeia da polimerase quantitativa com transcrição reversa (RT-qPCR). Esses testes auxiliam na avaliação dos fatores de risco para várias doenças metabólicas e na previsão de respostas a terapias direcionadas ao receptor de glicocorticoides, bem como na probabilidade de efeitos adversos — como distúrbios na homeostase da glicose — durante o tratamento com hormônios do córtex adrenal. No entanto, mais pesquisas são necessárias para confirmar sua utilidade clínica.

O MR também desempenha um papel fundamental no tecido adiposo, particularmente durante a diferenciação dos adipócitos, na regulação da secreção de adipocinas e da autofagia, e na adipogênese induzida por corticosteroide. À medida que os adipócitos amadurecem, a expressão do MR aumenta. A ativação do MR tem efeitos prejudiciais no tecido adiposo, incluindo hipertrofia dos adipócitos, aumento da infiltração de macrófagos e polarização pró-inflamatória, aumento da expressão de adipocinas pró-inflamatórias, disfunção mitocondrial, produção excessiva de espécies reativas de oxigênio (ROS) e comprometimento dos processos de "browning". Quando a ativação do MR é excessiva — como na obesidade, onde a expressão do MR nos adipócitos está elevada — ela promove os processos disfuncionais característicos da síndrome metabólica, incluindo aumento da massa gorda, disfunção endotelial, estresse oxidativo e inflamação. 

Por outro lado, estudos mostram que a redução da expressão de MR em pré-adipócitos viscerais humanos primários interrompe sua diferenciação e reduz a expressão de PPARγ, um regulador transcricional chave da adipogênese. Pacientes obesos apresentam aumento da expressão de MR em adipócitos, tanto no tecido adiposo visceral quanto no subcutâneo, com maior expressão entre os adipócitos viscerais. Pesquisas indicam que a aplicação de dexametasona eleva os níveis de leptina e adiponectina, enquanto reduz as citocinas pró-inflamatórias (por exemplo, IL-6, TNF e MCP1). Por outro lado, a aldosterona aumenta a expressão de citocinas pró-inflamatórias (PAI-1 e MCP1) e suprime a expressão de adiponectina.

Níveis elevados de DHEA têm sido associados a uma menor prevalência de obesidade em homens e mulheres, bem como a menor acúmulo de gordura abdominal em homens. Em contrapartida, níveis baixos de DHEA correlacionam-se com maior adiposidade e maior incidência de várias doenças relacionadas à idade, incluindo obesidade, diabetes tipo 2 e aterosclerose. 





Vários estudos que examinam o impacto do DHEA no tecido adiposo sugerem que ele inibe a proliferação e diferenciação dos adipócitos, estimula a hidrólise de triacilgliceróis, aumenta a captação de glicose, suprime a atividade da 11-βHSD1 e a síntese de leptina e regula positivamente a expressão do gene da adiponectina.

O estresse crônico ocorre quando o estressor persiste por um longo período de tempo e afeta negativamente o funcionamento fisiológico e psicológico do indivíduo. O estresse crônico acelera o envelhecimento e promove o desenvolvimento de doenças relacionadas à idade, especialmente a doença de Alzheimer. 

A exposição a estressores crônicos afeta o eixo HPA de maneira semelhante ao envelhecimento, devido aos altos níveis de cortisol observados em ambos os casos. O hipercorticolismo observado durante o estresse crônico afeta a função cerebral por meio de diversos mecanismos (Figura 7). Além disso, altos níveis de cortisol levam a uma diminuição do volume do hipocampo (HC), córtex pré-frontal (PFC) e regiões têmporo-parieto-occipitais e a um aumento do volume da amígdala, que clinicamente se manifesta como ansiedade e comprometimento cognitivo. 



É importante ressaltar que o HC e o PFC regulam o ritmo diurno do cortisol, inibindo predominantemente a atividade do eixo límbico-HPA, enquanto a amígdala parece ativar a resposta ao estresse.

Fonte:

1. Erceg N et al. The Role of Cortisol and Dehydroepiandrosterone in Obesity, Pain, and Aging. Diseases 2025;13:42.

sexta-feira, 20 de março de 2026

Infecção do Cateter em pacientes com Nutrição Parenteral: PICCs x Port a Cath

Meta análise publicada em 2026.

Dez estudos relataram os efeitos de acesso venoso central de inserção periférica (PICCs) e cateteres venosos centrais (CVCs) tunelizados na incidência de infecção de corrente sanguinea relacionada a cateteres centrais (CRBSI) com base no risco por paciente. 



Observou-se que o uso do PICC associou-se a um risco significativamente menor de CRBSI em comparação com CVCs tunelizados (modelo de efeitos fixos: RR = 0,40, IC 95% 0,33–0,49; modelo de efeitos aleatórios: RR = 0,38, IC 95% 0,29–0,50; ambos p < 0,001) (Figura 2).

A taxa média de CRBSI foi de 0,77 por 1.000 dias de PICC (variação: 0,00–1,96 por 1.000 dias de PICC) e 1,01 por 1.000 dias de CVC tunelizado (variação: 0,41–1,93 por 1.000 dias de CVC tunelizado), indicando uma incidência consistentemente menor associada aos PICCs.

A análise de subgrupos por país mostrou resultados semelhantes na maioria das regiões, incluindo EUA, Espanha, Canadá, França e Dinamarca, sem diferenças significativas entre PICCs e CVCs tunelizados. 

Cateter tunelizado

Em contraste, Itália e Polônia não demonstraram uma diferença estatisticamente significativa entre os dois tipos de cateter.

FIGURA 2 - gráfico da incidência de CRBSI entre os grupos de PICCs e cateteres tunelizados

A escolha entre PICCs e CVCs tunelizados para nutrição parenteral domiciliar continua sendo um tema de importante debate clínico. 

Essa controvérsia surge das diferenças nos riscos de complicações, conforto do paciente e custo-efetividade. Portanto, determinar qual método de inserção do cateter proporciona melhores resultados é de importância crítica. 

Nesta atual metanálise, descobriu-se que os PICCs estão associados a um menor risco de infecção da corrente sanguínea relacionada ao cateter (CRBSI) em comparação com os CVCs tunelizados em pacientes que recebem nutrição parenteral domiciliar.

O menor risco de CRBSI observado associado aos PICCs pode ser explicado por vários motivos plausíveis. Primeiro, a inserção periférica pode reduzir o risco de contaminação do procedimento, pois o local da punção é mais acessível e mais fácil de manter assepticamente.

Segundo, a colocação do PICC é geralmente menos invasiva e frequentemente realizada à beira do leito com auxílio de ultrassom, o que tem sido associados a menos complicações relacionadas à inserção e tempos de procedimento mais curtos — fatores que podem reduzir o risco de infecção. 

Além disso, as características do design do cateter podem contribuir para diferenças no risco de infecção da corrente sanguínea relacionada ao cateter (CRBSI). Os cateteres PICC usados ​​para nutrição parenteral domiciliar são mais frequentemente de lúmen único e de menor diâmetro, características que foram associadas a menores taxas de colonização intraluminal (2 3).

No entanto, os cateteres venosos centrais tunelizados são mais frequentemente selecionados para pacientes com maior gravidade da doença, acesso venoso periférico precário ou terapia prolongada ou complexa prevista. Como a maioria dos estudos incluídos foi observacional e não apresentou ajuste para gravidade da doença, indicação do cateter e estado funcional, não se pode excluir a presença de fatores de confusão residuais.


Embora os resultados desta meta-análise indiquem que os PICCs podem estar associados a um menor risco de infecção da corrente sanguínea relacionada ao cateter (CRBSI) em comparação com os cateteres venosos centrais tunelizados em pacientes recebendo nutrição parenteral domiciliar, os estudos disponíveis são observacionais, apresentando um risco substancial de viés e fatores de confusão residuais, o que levou a uma certeza muito baixa das evidências. 

Ensaios clínicos randomizados controlados de alta qualidade e bem delineados, com definições padronizadas de CRBSI e relato abrangente de variáveis ​​relacionadas ao cateter são urgentemente necessários para confirmar esses achados e orientar estratégias ideais de acesso vascular no cuidado com nutrição parenteral domiciliar.

Fonte: 

1. Zheng Y-L, Wang Y, Qi S-P, Zhang W and Lin P-Y. Comparison of catheter-related bloodstream infection between peripherally inserted central catheters and tunneled central venous catheters in patients receiving home parenteral nutrition: a meta-analysis. Front. Nutr. 2026;13:174241.

2. Reynolds H, Gowardman J, Woods C. Care bundles and peripheral arterial catheters. Br J Nurs. 2024;33:S34–41. 

3. Vilao A, Castro C, Fernandes JB. Nursing interventions to prevent complications in patients with peripherally inserted central catheters: a scoping review. J Clin Med. 2024;14:89. 

quinta-feira, 19 de março de 2026

The Quiet Revival nos Hospitais

Inesperadamente, têm aumentado a procura pela religião católica em muitas partes do mundo, nos ultimos anos. Esse fenômeno, ainda não compreendido totalmente, está sendo chamado de "The Quiet Revival" (Renascer Silencioso") e se faz notar mais claramente entre a geração Z, milemnial. 

Nós notamos isso em nossos alunos de medicina e da Residência Médica. Isso decorre, tambem em decorrênncia da crise existencial que assola a humanidade. Afinal, taxas elevadas de problemas de saúde mental foram identificadas em estudantes de medicina [2]. Esse sofrimento mental afeta a vida pessoal desses estudantes e tem sérias implicações para seu treinamento e desenvolvimento profissional [1]. As evidências comprovam que os problemas de saúde mental entre estudantes de medicina são significativamente maiores do que na população em geral (Soares et al., 2022).

Visando superar esses problemas, os estudantes tendem a usar estratégias preventivas, como exercícios físicos, meditação, grupos de apoio e também cultivar crenças espirituais. De fato, o papel das crenças religiosas entre estudantes de medicina ainda está sob investigação, com resultados distintos. Estudos mostraram que a espiritualidade está associada a maior satisfação com a vida e menor burnout (Wachholtz & Rogoff, 2013), menor ideação suicida (Vitorino et al., 2023), ausência de doenças mentais (Pillay et al., 2016) e níveis mais baixos de ansiedade (Gonçalves et al., 2018). Por outro lado, também existem resultados não significativos (Dias et al., 2022; Rammouz et al., 2023) e resultados negativos (ou seja, o enfrentamento religioso negativo foi associado a maior ideação suicida) (Vitorino et al., 2023).

Os resultados de uma pesquisa nos USA demonstram que a religião é um aspecto proeminente das identidades autodeclaradas dos médicos internistas dos EUA [3]. A maioria dos participantes declarou ter alguma afiliação religiosa, e a maioria dos médicos entrevistados declarou acreditar em Deus e praticar a oração pelo menos uma vez por semana fora de um local de culto. Esses resultados são semelhantes aos da população dos EUA, embora a diversidade religiosa da nossa amostra tenha sido maior do que a da população dos EUA. Esses resultados também estão de acordo com o que outros pesquisadores descobriram: as identidades religiosas dos médicos dos EUA são mais diversas e têm maior probabilidade de serem afiliadas a religiões sub-representadas nos EUA.

RESULTADOS: De 1421 médicos de medicina interna selecionados aleatoriamente [4], 629 responderam a um questionário (taxa de resposta de 44,3%). Os médicos tinham uma mediana de 23 (intervalo interquartil, 15-29) anos de prática; 376 de 617 (60,9%) eram homens. Um total de 299 dos 617 respondentes (48,5%) eram hospitalistas, enquanto 307 de 618 (49,7%) eram médicos de atenção primária. Um total de 424 dos 626 respondentes (67,7%) relataram ter vivenciado um momento sagrado com um paciente. Dos 421 respondentes que forneceram respostas adicionais, 19 (4,5%) frequentemente ou sempre discutiam essas experiências com colegas. Os fatores associados ao maior aumento da probabilidade de vivenciar um momento sagrado incluíram considerar-se uma pessoa muito espiritual (razão de chances [RC], 2,23; IC 95%, 1,44-3,44; P < 0,001) e ter um forte senso de propósito na vida (RC, 1,94; IC 95%, 1,36-2,76; P < 0,001) e no trabalho (RC, 1,94; IC 95%, 1,35-2,79; P < 0,001). Comparados com aqueles que vivenciam momentos sagrados com menos frequência, os respondentes que vivenciam momentos sagrados algumas vezes por ano ou com mais frequência apresentaram menor probabilidade de burnout extremo (RC, 0,29; IC 95%, 0,14-0,60; P = 0,001). Discutir momentos sagrados com colegas foi associado a menores chances de burnout (OR, 0,62; IC 95%, 0,40-0,95; P = 0,03).

Existem trabalhos que demonstram que os médicos estão encorajados a realizar uma oração se solicitados. Um estudo de 476 médicos americanos descobriu que 77% estariam dispostos a orar com seus pacientes se os pacientes pedissem oração (Monroe MH, Bynum D, Susi B, Phifer N, Schultz L, Franco M, MacLean CD, Cykert S, Garrett J. Primary care physician preferences regarding spiritual behavior in medical practice Arch Intern Med. 2003 Dec 8-22;163(22):2751- 6.doi:10.1001/archinte.163.22.2751.).

A Resolução CFM 1.805/2006 assegura o direito ético do paciente à assistência espiritual e considera dever do médico facilitá-la. O artigo 2º diz: “O doente continuará a receber todos os cuidados necessários para aliviar os sintomas que levam ao sofrimento, assegurada a assistência integral, o conforto físico, psíquico, social e espiritual, inclusive assegurando-lhe o direito da alta hospitalar”. O PARECER CFM nº 2/2011: Não há que existir incompatibilidades entre a fé e a razão, entre a crença e o conhecimento científico no ensino, nem no exercício da profissão médica, desde que respeitados os princípios básicos irrefutáveis da boa prática médica.


Fonte: 

1. Dyrbye LN, Thomas MR, Shanafelt TD. Systematic review of depression, anxiety, and other indicators of psychological distress among U.S. and Canadian medical students. Academic Medicine, 2006;81(4), 354–373 

2. Diego‑Cordero R, Lucchetti ALG, Luccheti G. Religiosity, Mental Health and Quality of Life of Brazilian Medical Students: A 2‑Year Follow‑Up Study. Journal  of Religion and Health 2025; 

3. Collier et al. Spirituality and Religiosity of Internal Medicine Physicians in the USA: Results from a National Survey. J Gen Intern Med 2025;41(2): 431-436. 

4. Ameling J, Houchens N, Greene T, Ratz D, Quinn M, Kuhn L, Saint S. Sacred Moment Experiences Among Internal Medicine Physicians. JAMA Netw Open 2025;8(50): e2513159.

quinta-feira, 5 de março de 2026

Tirzepatida - agora em uma só caneta

O medicamento para emagrecimento TIRZEPATIDA, vendido no Brasil com o nome de MOUNJARO e nos países desenvolvidos com o nome de ZEPBOUND mudou de apresentação por lá.

Agora será vendido não mais em uma caneta por aplicação, mas em apenas um dispositivo para doses semanais (caneta multidose KwikPen). 

Os médicos também são orientados a não compartilhar a caneta KwikPen com Zepbound entre pacientes, mesmo que a agulha seja trocada, para evitar o risco de transmissão de patógenos pelo sangue.

Vai Jejuar? Faça direito!

 O JEJUM tornou-se uma das dietas amis procuradas nos ultimos anos, por vários motivos: saúde, emagrecimento e crescimento espiritual.

É provável que o jejum intermitente não seja superior a outras dietas para perda de peso e pode não levar a uma melhor qualidade de vida, de acordo com uma revisão Cochrane publicada por Luis Ignacio Garegnani, do Instituto Universitário do Hospital Italiano, em Buenos Aires, Argentina, e seus colegas. Garegnani e sua equipe analisaram 22 ensaios clínicos randomizados.

O "jejum intermitente" agrupa diferentes abordagens alimentares que dividem o tempo em períodos regulares de alimentação e jejum, incluindo variantes como jejum em dias alternados, alimentação com restrição de tempo no início e no final do dia, uma refeição por dia e jejum 5:2. Os períodos de jejum e alimentação podem variar bastante dependendo do método.



A revisão fornece evidências de que o jejum intermitente parece ser tão eficaz quanto outras abordagens dietéticas para a perda de peso em pessoas com sobrepeso e obesidade. "Mas, para sermos claros: até o momento, são apenas indícios, não provas", afirmou Jörg Meerpohl, diretor do Instituto de Evidências em Medicina do Centro Médico Universitário de Freiburg, na Alemanha, e diretor da Cochrane Alemanha.

FONTE:

1. Garegnani LI, Oltra G, Ivaldi D, Burgos MA, Andrenacci PJ, Rico S, Boyd M, Radler D, Escobar Liquitay CM, Madrid E. Intermittent fasting for adults with overweight or obesity. Cochrane Database of Systematic Reviews 2026 (2)CD015610.  

Novas diretrizes para a redução da prescrição de medicamentos Psiquiátricos 2026

Recomendações:

1. a utilidade de cada medicamento psicotrópico deve ser reavaliada periodicamente — no mínimo, anualmente — e que uma análise de risco-benefício deve ser realizada antes de qualquer decisão de desprescrição.

2. quando os pacientes tomam vários medicamentos psiquiátricos, apenas uma alteração na prescrição deve ser feita de cada vez.

3. não prescrever e renovar passivamente os tratamentos sem antes avaliar periodicamente o esquema medicamentoso.

4. aproximadamente 50% dos pacientes com transtornos mentais crônicos não aderem bem ao tratamento, os membros do painel concordaram que as decisões sobre a suspensão da medicação por suposta falta de eficácia não devem ser tomadas até que a adesão do paciente seja cuidadosamente avaliada.

5. Benzodiazepínicos devem ser cuidadosamente reavaliados à medida que os pacientes envelhecem e as listas de medicamentos em pacientes idosos devem ser rotineiramente avaliadas quanto à carga anticolinérgica cumulativa.

6. Valproato de sódio possui riscos teratogênicos bem documentados e  OMS desaconselha seu uso em mulheres em idade fértil. 

FONTE:

1. Goldberg JFMcIntyre RSSwartz HA, et al. Psychotropic Medications. A Consensus Statement From the American Society of Clinical Psychopharmacology Task Force. JAMA Netw Open 2026;9;(2):e260043. 


sábado, 24 de janeiro de 2026

Considerações nutricionais para pacientes com doença crítica persistente

Introdução:

Os sobreviventes de doenças críticas apresentam déficits funcionais debilitantes que impactam a capacidade física e a qualidade de vida,¹ sendo um dos principais fatores a significativa perda muscular que ocorre na unidade de terapia intensiva (UTI).

A nutrição é considerada uma intervenção potencial para atenuar a perda muscular e melhorar a recuperação funcional. Em pacientes hospitalizados não críticos, a nutrição aprimorada a longo prazo na enfermaria melhorou o estado funcional,³ sugerindo que intervenções nutricionais de longo prazo podem ser necessárias para demonstrar benefícios na área de terapia intensiva [1]. 

Além disso, à medida que os avanços nos tratamentos médicos permitem que um número crescente de pacientes complexos sobreviva à doença ou lesão inicial, há um entendimento de que uma proporção maior de pacientes pode apresentar doença crítica persistente.

No entanto, há uma escassez de dados sobre práticas e manejo nutricional para esses pacientes. As evidências atuais de ensaios clínicos randomizados (ECRs) de intervenções nutricionais administradas a pacientes críticos, em grande parte, não demonstraram benefícios em desfechos importantes para o paciente. 5–8

Uma das razões para a falta de benefícios observada com as intervenções nutricionais pode ser o fato de elas terem sido predominantemente administradas no início da doença crítica e por um curto período (ou seja, cerca de 1 semana), em vez de por um período mais longo, como seria possível em uma coorte de pacientes com doença crítica persistente. 

Esta revisão se concentrará nas considerações nutricionais para pacientes com doença crítica persistente e internação prolongada em UTI. Os tópicos incluirão metabolismo energético e proteico, prescrição e administração; consequências da administração nutricional; monitoramento à beira do leito; e o papel da equipe de saúde na otimização do suporte nutricional para pacientes com doença crítica persistente.

O QUE É DOENÇA CRÍTICA PERSISTENTE? 

Existem diversas definições para descrever pacientes que dependem de suporte em UTI além da fase aguda inicial de cuidados. 

Uma revisão de 2020 resumiu a terminologia relatada na literatura para descrever pacientes com internação prolongada em UTI, incluindo ventilação mecânica prolongada; pacientes criticamente enfermos crônicos; doença crítica persistente; e síndrome inflamatória-imunossupressora e catabólica persistente.⁹ 

Para os fins desta revisão, doença crítica persistente será definida como uma internação em UTI com duração superior a 10 dias, consistente com o momento de início da doença crítica persistente previamente descrito.

CONSEQUÊNCIAS DA DOENÇA CRÍTICA PERSISTENTE: 

Para pacientes com doença crítica persistente, o tratamento na fase tardia da internação na UTI provavelmente difere daquele na fase aguda inicial da doença (7º ao 10º dia de internação). 

Uma característica marcante da doença crítica persistente é a maior utilização e duração da ventilação mecânica. Os pacientes também são mais propensos a apresentar falência múltipla de órgãos, necessitando de maior uso de suporte vasoativo e terapia de substituição renal, e apresentam maior risco de infecção e lesões de pele do que aqueles com menor tempo de internação na UTI.

Apesar de pacientes com doença crítica persistente representarem uma pequena proporção do total de admissões em UTI (aproximadamente 5% a 16% dos pacientes), esses pacientes têm implicações significativas em termos de custos e recursos de saúde. 

Pacientes com internação prolongada em UTI apresentam maior risco de mortalidade tanto na UTI (razão de chances [RC] 1,23; IC 95% 1,11–1,37; P < 0,001) quanto no hospital (RC 1,54; IC 95% 1,43–1,67; P < 0,001) do que aqueles com internação mais curta em UTI, com taxas de mortalidade na UTI de 15%¹³ e taxas de mortalidade hospitalar de aproximadamente 25%–29%. 

Pacientes com internação prolongada em UTI apresentam maiores taxas de readmissão na UTI e apenas 19% a 48% recebem alta para casa. Quanto maior o tempo de internação na UTI, menor a probabilidade de o paciente receber alta para casa. 

IMPLICAÇÕES NUTRICIONAIS 

Diversos fatores concomitantes à doença crítica persistente colocam esses pacientes em maior risco nutricional.

Uma revisão sistemática, incluindo estudos nos quais a avaliação nutricional foi realizada precocemente na admissão à UTI, relatou alta e variável prevalência de desnutrição (variando de 38% a 78%), que foi associada independentemente ao tempo de internação na UTI, readmissão na UTI, incidência de infecção e risco de mortalidade hospitalar. 

Altas taxas de terapia de substituição renal, lesões cutâneas e exposição inadequada à luz solar provavelmente exacerbam as deficiências de micronutrientes observadas em uma coorte geral de UTI.

Os pacientes também apresentam alterações hormonais exclusivas da doença crítica persistente, como redução dos níveis de hormônio adrenocorticotrófico e testosterona e concentrações elevadas de cortisol, o que pode impactar negativamente o metabolismo e a massa muscular. 

Portanto, a doença crítica persistente provavelmente é sinônimo de perda muscular. Em uma população geral de UTI, observou-se rápida perda muscular de aproximadamente 2% ao dia durante a primeira semana na UTI, com maior gravidade da doença associada a maior perda muscular. 

A perda muscular continua durante as primeiras 2 a 3 semanas de internação na UTI, provavelmente perpetuando a necessidade de ventilação mecânica contínua, e não é recuperada na enfermaria pós-UTI. 

Embora o aumento precoce da oferta de energia e proteína não tenha se mostrado eficaz na melhoria dos desfechos clínicos em pacientes de UTI em geral, é altamente plausível que déficits nutricionais cumulativos significativos exacerbarão essa perda muscular e, eventualmente, levarão ao desenvolvimento ou progressão da desnutrição e impactarão a recuperação. As considerações nutricionais específicas para pacientes com doença crítica persistente e os objetivos da terapia estão resumidos na Figura 1: 

Figura 1. Estratégias e considerações nutricionais na doença crítica persistente

VIA DE OFERTA NUTRICIONAL 

A nutrição oral é recomendada como a via preferencial de alimentação, sendo a nutrição enteral (NE) utilizada caso esta não seja possível. 

A nutrição parenteral (NP) é geralmente reservada para pacientes nos quais o uso do trato gastrointestinal (GI) é contraindicado. 

No entanto, essas diretrizes são de natureza geral e não contêm recomendações específicas para pacientes com doença crítica persistente. 

Em um estudo observacional com 1172 pacientes internados em uma UTI europeia por ≥5 dias, Matejovic et al relataram que >50% dos pacientes não receberam nutrição no dia 1, reduzindo para <10% no dia 5 [2]. Apesar de uma variedade de vias de nutrição terem sido iniciadas nos primeiros 5 dias, a NE foi a mais comum. Do 5º ao 15º dia, a via de nutrição permaneceu relativamente estável, com a maioria dos pacientes continuando a ser alimentada por meio de nutrição enteral.

Isso é corroborado por um estudo menor, unicêntrico, com 150 pacientes ao longo de 30 dias, para os quais a nutrição enteral representou 55,7% do total de dias [3].

Isso sugere que a via de nutrição tem maior probabilidade de mudar no início da UTI e, em seguida, tornar-se mais estável após a primeira semana.

Embora a nutrição enteral (NE) seja inicialmente recomendada por meio de uma sonda nasoentérica, sondas de alimentação de longo prazo, como gastrostomia ou jejunostomia, são recomendadas para pacientes com internação prolongada.

No entanto, existem poucos dados sobre o momento ideal para a inserção dessas sondas, e a decisão deve ser tomada caso a caso, alinhada aos objetivos do paciente. 

O uso de nutrição parenteral (NP), especificamente em relação ao momento ideal de início e duração da administração, permanece controverso na literatura [4]. 

Não há recomendações claras para pacientes com doença crítica persistente; no entanto, mais recentemente, as diretrizes têm favorecido o uso de NP tardia, provavelmente indicando um uso maior em pacientes internados na UTI por mais de 7 dias [4].

Figura 2. Momento ideal para iniciar a nutrição parenteral (NP) de acordo com grandes ensaios clínicos randomizados e diretrizes.
As Diretrizes da ESPEN de 2009 recomendavam iniciar a NP em até 48 horas. A atualização das Diretrizes da ESPEN de 2019 recomendava iniciar a NP entre 3 e 7 dias após a admissão na UTI. As Diretrizes da ASPEN de 2007 e 2014 recomendavam iniciar a NP na primeira semana após a admissão na UTI. Em 2013, Heidegger e colegas encontraram um melhor resultado para pacientes que receberam NP suplementar no 4º dia (n = 305). Doig e colegas encontraram não inferioridade da NP precoce (<24 horas) em 1372 pacientes. Em 2012, o estudo EPANIC de 2011 (n = 4260) constatou que os pacientes apresentaram melhores resultados quando a nutrição parenteral (NP) foi iniciada após o 8º dia. 

A via de nutrição para o paciente com doença crítica persistente deve continuar a priorizar a necessidade clínica, a segurança e a adequação da administração de nutrição.

METABOLISMO ENERGÉTICO E PRESCRIÇÃO
A resposta metabólica à lesão tem sido amplamente descrita como incluindo uma fase aguda inicial de “refluxo”, uma fase catabólica de “fluxo” e uma terceira fase anabólica ou de convalescença, de “recuperação”.34,35 

Embora a fase de refluxo seja breve e marcada por uma redução no consumo de oxigênio e no gasto energético (GE), a fase de fluxo é caracterizada por catabolismo, resistência à insulina e aumento do GE, que podem continuar
por semanas após a lesão.35,36 

Na fase de recuperação, os processos metabólicos normalizam e os pacientes em estado crítico podem ser mais capazes fisiologicamente de usar a nutrição (de fontes exógenas) para recuperação e reconstrução das reservas nutricionais e do tecido magro.37 

Tabela 1-Fisiopatologia e consequências metabólicas da doença crítica ao longo do tempo [5]

Itens

agudo precoce

(dias 1-2)

agudo tardio

(dias 3-7)

Fase de Recuperação

(> dia 7-meses)

Anorexia

↑↑

↑ ou ↔

Autofagia

↑↑

Produção endógena de glicose

↑↑

Hiperglicemia

↑↑

Risco de Realimentação

↑↑

Gasto energético basal

↑↑


Atualmente, não há nenhum marcador clínico validado ou abordagem analítica à beira do leito que possa identificar de forma confiável a mudança do catabolismo para o anabolismo, o que impede a individualização do fornecimento de energia para a fase da doença.

Há quase 100 anos atrás, David Cuthbertson e Francis Moore descreveram um modelo trifásico da resposta metabólica à doença aguda: 
  • uma fase aguda inicial, caracterizada por instabilidade, resistência a estímulos anabólicos e metabolismo reduzido, seguida por uma 
  • fase catabólica na UTI e pós-UTI e, finalmente, por uma 
  • fase anabólica de recuperação. 
Muitos dos princípios subjacentes a este modelo permanecem válidos [6]. 

É plausível considerar que o tratamento nutricional deva ser diferente nessas diferentes fases [7] ou, como a duração de cada uma das três fases varia entre os indivíduos, em decorrência de diferentes doenças ou lesões apresentadas (por exemplo, pacientes traumatizados têm uma taxa metabólica basal mais alta do que pacientes cirúrgicos ou clínicos), bem como diferentes idades e condições corporais dos pacientes, que deva ser ajustado de acordo com o perfil metabólico individual de um paciente em um determinado momento. O desafio é como detectar e definir esses perfis em pacientes individuais e como ajustar os protocolos de estudos nutricionais de acordo.

Considerando essas alterações metabólicas e os achados de importantes ECRs (Ensaios Clínicos Randomizados), recomenda-se que o fornecimento de energia seja gradualmente titulado durante a primeira semana de internação na UTI para evitar a superalimentação, tendo em vista a produção endógena de glicose.

Embora não haja metas energéticas específicas para pacientes com doença crítica persistente, atingir o gasto energético (GE) (conforme apropriado) deve ser considerado para prevenir a perda adicional de massa magra e promover a recuperação e a reabilitação.

A calorimetria indireta (CI) é recomendada para orientar o fornecimento de energia devido à variabilidade e à dificuldade em prever com precisão o GE. O uso da CI pode se tornar ainda mais importante no paciente alimentado artificialmente com doença crítica persistente, que pode apresentar maior risco de subalimentação e/ou superalimentação durante uma internação prolongada na UTI.

Na ausência de IC, a Sociedade Europeia de Nutrição Clínica e Metabolismo (ESPEN) recomenda medir o VO2 a partir de um cateter na artéria pulmonar, o VCO2 do ventilador ou usar equações preditivas baseadas no peso, como 20–25 kcal/kg/dia, para determinar o gasto energético (GE) [8]. 

Em contraste, a Sociedade Americana de Nutrição Parenteral e Enteral (ASPEN) recomenda prescrever entre 12 e 25 kcal/kg/dia durante os primeiros 7 a 10 dias de internação na UTI [9]. 
No entanto, nenhuma das recomendações é específica para doenças críticas persistentes. Os médicos devem considerar a presença de fatores clínicos que sabidamente afetam o GE, como febre, nova infecção, alteração na medicação (incluindo sedativos, betabloqueadores, inotrópicos e vasopressores), aumento da atividade física ou estado ventilatório, ao revisar as prescrições energéticas [10,11].

METABOLISMO E PRESCRIÇÃO DE PROTEÍNAS 
As diretrizes de nutrição em terapia intensiva da ASPEN recomendam fornecer entre 1,2 e 2,0 g de proteína/kg/dia, enquanto as diretrizes da ESPEN recomendam um aumento progressivo na dose de proteína até uma meta de 1,3 g/kg/dia. 

No entanto, nenhuma das diretrizes fornece recomendações específicas para pacientes com doença crítica persistente.

Desde a atualização dessas diretrizes, um grande estudo clínico randomizado (n = 1329 pacientes críticos) com dose proteica isocalórica mais elevada foi publicado. O estudo EFFORT Protein alcançou uma diferença significativa na dose proteica (0,9 ± 0,3 vs 1,6 ± 0,5 g/kg/dia),⁸ sem diferença no desfecho primário, tempo até a alta hospitalar com vida (razão de risco 0,91; IC 95% 0,77–1,07; P = 0,27). No entanto, em consonância com as evidências sobre a dose energética, embora este estudo tenha administrado a intervenção nutricional durante toda a internação na UTI, a duração mediana da alimentação foi de apenas cerca de 10 dias (proteína usual: 10 [6–11] vs alta: 11 [6–11] dias). Consequentemente, o impacto da dose proteica além dos primeiros 10 dias de internação na UTI é desconhecido.

Uma consideração importante para os alvos proteicos é que, no início da doença crítica, os pacientes são incapazes de utilizar eficazmente a proteína dietética para sintetizar massa muscular. Embora a digestão de proteínas e a absorção de aminoácidos não sejam prejudicadas na doença crítica, as taxas de síntese de proteína muscular são substancialmente reduzidas, com pacientes em UTI incorporando 60% menos proteína dietética diretamente no músculo do que controles saudáveis,⁴⁷ representando uma “resistência anabólica”

No entanto, estudos recentes mostraram que o metabolismo proteico provavelmente se altera durante a internação na UTI. Uma análise post hoc de subgrupos de um grande banco de dados de sepse mostrou que pacientes com internação na UTI ≥ 14 dias e disfunção orgânica persistente apresentam catabolismo contínuo (tendência a maiores proporções de 3-metil-histidina urinária em relação à creatinina) em comparação com aqueles que se recuperam rapidamente (alta em até 14 dias) [12]. Esse estado catabólico provavelmente se resolve após esse período. 

Gamrin-Gripenberg et al. avaliaram a renovação proteica muscular da perna em 20 pacientes críticos a cada 8-12 dias, entre o 10º e o 40º dia de internação na UTI. Embora o balanço proteico líquido tenha sido negativo nos primeiros 10-20 dias, um aumento na taxa de síntese proteica ao longo do tempo (P = 0,007) resultou em um balanço proteico líquido neutro entre o 30º e o 40º dia (P = 0,012). Além disso, como a combinação de atividade física e proteína dietética resulta em uma taxa de síntese proteica muscular maior do que qualquer uma das intervenções isoladamente, [13] é plausível que um aumento na atividade física durante a internação na UTI possa melhorar a utilização da proteína dietética. 

Atualmente, há interesse no uso da ureia ou da relação ureia/creatinina para orientar a dosagem de proteína na dieta. Em 1173 pacientes com trauma grave, aqueles com doença crítica persistente apresentaram um aumento maior na relação ureia/creatinina do que aqueles que receberam alta antes do 10º dia (aumento de 133% vs. 59%; P < 0,001), e esse aumento foi associado a maior perda de massa muscular esquelética, quantificada por tomografia computadorizada. Da mesma forma, uma análise post hoc do estudo EFFORT Protein relatou que a mediana de ureia foi maior nos pacientes do grupo com maior ingestão de proteína, e um aumento de duas vezes na ureia foi associado a maior mortalidade em 30 dias [14].

Esses resultados sugerem que a ureia ou a relação ureia/creatinina podem atuar como um marcador substituto para o catabolismo [15] e para orientar a administração de proteínas à beira do leito. Na ausência de dados de alta qualidade para orientar as metas de proteína em doenças críticas persistentes, as doses de proteína dentro das diretrizes internacionais de terapia intensiva devem ser direcionadas após a fase aguda da doença, com o objetivo de atenuar a perda de massa muscular e prevenir o desenvolvimento ou exacerbação da desnutrição. 

ADMINISTRAÇÃO DE ENERGIA E PROTEÍNA 
Poucos estudos quantificaram especificamente a administração de nutrientes em pacientes com doenças críticas persistentes. Em um estudo observacional com 150 pacientes adultos internados em UTI por mais de 2 semanas, a mediana [intervalo interquartil] da oferta de nutrição por meio de nutrição enteral melhorou ao longo da internação na UTI (energia: dia 1–10, 15,8 [11,8–18,9] kcal/kg de peso corporal (PC)/dia vs dia 11–30; 20,8 [17,9–23,9] kcal/kg PC/dia 31 e proteína: dia 1–10: 0,69 [0,52–0,86] g/kg PC/dia vs dia 11–30: 1,0 [0,6–1,4] g/kg PC/dia). Em um pequeno estudo clínico randomizado (ECR) unicêntrico realizado por Dresen et al., 42 pacientes foram incluídos mais tarde na admissão à UTI (média ± DP de 13 ± 2 dias após a admissão à UTI) e receberam 1,5 ou 1,0 g/kg/dia de proteína durante a fase tardia da doença crítica, com o gasto energético (GE) ajustado para o valor medido. Essa intervenção não alcançou um impacto estatisticamente significativo na perda de massa muscular em pacientes imobilizados por longo período na UTI, embora os resultados sejam limitados pelo pequeno tamanho da amostra. 

Em pacientes que consomem nutrição por via oral, a adequação nutricional tem sido relatada como ainda menor, com déficits diários de ≤80% nos 5 dias após a extubação [15]
A ingestão oral por um período mais longo é relatada em um estudo observacional com 19 pacientes ao longo de 54 dias de estudo, com ingestão mediana de energia e proteína de 870 [455–1173] kcal/dia e 32 [17–46] g/dia de proteína, respectivamente.

Embora a administração de baixas doses de energia e proteína nos primeiros 7 dias de internação na UTI não pareça impactar os desfechos dos pacientes, os déficits cumulativos ao longo de uma internação prolongada na UTI são preocupantes, e os déficits acumulados na fase inicial não podem ser recuperados na fase posterior

BARREIRAS À ADMINISTRAÇÃO DE NUTRIÇÃO 
As barreiras à administração de nutrição têm sido bem descritas na literatura durante a primeira semana de internação na UTI, mas têm sido menos descritas posteriormente. 



No início da internação na UTI, as barreiras comuns à administração de nutrição enteral incluem o jejum para procedimentos e a intolerância gastrointestinal. Em casos de doença crítica persistente, é improvável que a intolerância gastrointestinal cause interrupções significativas [17].
Em casos de doença crítica persistente, é improvável que a intolerância gastrointestinal cause interrupções significativas na nutrição enteral além da primeira semana, visto que geralmente ocorre entre 24 e 72 horas após o início da nutrição enteral e dura de 0 a 48 horas.

Figura 4. Evolução da via de alimentação ao longo do tempo, apresentada como porcentagem de todos os pacientes durante os primeiros 30 dias — há um tempo variável de jejum durante a primeira semana. A alimentação enteral foi predominante, com uma proporção estável de alimentação enteral-parenteral combinada (Comb EN + NP) ou nutrição parenteral total (NP), e uma proporção variável das combinações oral-enteral ou oral-parenteral [17].

No entanto, o jejum pode contribuir para a redução contínua da nutrição durante uma internação prolongada, conforme demonstrado pelos dados do estudo de Viana et al., no qual 10,5% dos dias foram afetados pelo jejum ao longo do período de estudo de 30 dias [17]. 

As razões para esses períodos contínuos de jejum, porém, permanecem pouco quantificadas. Muitos centros submetem os pacientes a jejum para procedimentos nas vias aéreas, incluindo antes da extubação, caso seja necessária reintubação, ou para a inserção de uma traqueostomia, procedimentos que frequentemente ocorrem após 7 dias na UTI. Pacientes com via aérea protegida (com cuff endotraqueal ou de traqueostomia inflado) apresentam menor risco de aspiração e a alimentação contínua nesses pacientes pode ser considerada. Outras barreiras potenciais à administração de nutrição podem incluir a remoção inadvertida da sonda de alimentação, particularmente à medida que a sedação é reduzida, o que demonstrou impactar a administração de nutrição em outras populações, como pacientes com traumatismo cranioencefálico e aqueles com delirium.  

Uma pequena metanálise de seis estudos em 2014 demonstrou que os FIXADORES de SNE reduzem o risco de deslocamento da sonda em comparação com a fita nasal padrão (OR 0,16; IC 95% 0,10–0,27; P < 0,01) 65; no entanto, os médicos também devem estar atentos ao maior risco de complicações cutâneas que os fixadores apresentam. Além disso, as sondas de alimentação enteral são frequentemente removidas para ou em antecipação à transferência para cuidados em enfermarias, mesmo que a ingestão oral ainda não tenha sido estabelecida, representando outra barreira à administração de nutrição.
A transição para uma ingestão oral adequada pode ser igualmente dificultada por uma série de barreiras, incluindo a aversão a alimentos com textura modificada, frequentemente necessária para reduzir o risco de aspiração causada pela disfagia pós-extubação, que ocorre em até 62% dos pacientes [18].

A diminuição do apetite ocorre em pacientes críticos após a extubação [19] e naqueles que recebem suporte respiratório não invasivo, e provavelmente impacta a ingestão oral em casos de doença crítica persistente. 

Figura 4. Frequência das barreiras alimentares relatadas pelos pacientes.

Além disso, fatores como delirium, ansiedade e dispneia são comuns e também podem contribuir para a redução da ingestão oral. 

Embora o impacto da adequação nutricional nos desfechos de pacientes com doença crítica persistente seja desconhecido, os profissionais de saúde devem estar cientes e buscar superar as potenciais barreiras ao fornecimento de nutrição para evitar déficits nutricionais cumulativos.

MONITORAR A TERAPIA NUTRICIONAL
O monitoramento da oferta nutricional e dos parâmetros relacionados à nutrição (por exemplo, estado nutricional, alterações no peso corporal e na massa muscular esquelética, e bioquímica, incluindo deficiências de micronutrientes) deve ser um foco essencial para os médicos à beira do leito, com o objetivo de fornecer uma terapia nutricional ideal e segura.

O monitoramento rigoroso permitirá que os médicos determinem a trajetória da adequação nutricional, a resposta à alimentação, a necessidade de intensificar as estratégias de manejo nutricional e detectar quaisquer complicações potenciais o mais cedo possível [20]. 

Um objetivo fundamental da terapia nutricional durante doenças agudas é fornecer uma terapia nutricional adequada para a manutenção do peso e da massa muscular esquelética, visando a recuperação. 

Por outro lado, a superalimentação persistente tem sido associada a consequências metabólicas adversas, como aumento dos níveis de glicose no sangue, hipercapnia e hipertrigliceridemia, e deve ser evitada. Os objetivos do monitoramento da terapia nutricional e as recomendações específicas estão resumidos na Tabela 1 (adaptada de Berger et al.

A realização regular de triagem e avaliação de desnutrição é crucial. Embora existam diversas ferramentas, nenhuma foi validada para uso em UTI. Portanto, as diretrizes de terapia intensiva recomendam que todos os pacientes com permanência superior a 48 horas na UTI sejam considerados de alto risco nutricional

Uma avaliação nutricional abrangente, de acordo com as diretrizes locais, deve ser realizada o mais breve possível para pacientes de alto risco; contudo, o reconhecimento das limitações das ferramentas existentes é fundamental. Seria apropriado que um profissional de nutrição treinado revisasse o estado nutricional e o manejo de pacientes com doença crítica persistente pelo menos uma vez por semana durante a internação na UTI. Embora haja dados limitados que apoiem a modificação da terapia nutricional com base na perda de peso ou massa muscular, a perda de peso significativa e não intencional (definida como >5% do peso corporal) e a depleção da massa muscular esquelética são critérios-chave em todas as ferramentas de diagnóstico de desnutrição

Recomenda-se a mensuração e o monitoramento das alterações de peso e massa muscular como parte do monitoramento geral da terapia nutricional. No entanto, os profissionais de saúde devem estar cientes dos desafios que surgem ao realizar essas avaliações na população de pacientes críticos. É importante ressaltar que a terapia nutricional é frequentemente direcionada com base em cálculos de peso, portanto, considerando a perda muscular significativa que ocorre em pacientes críticos, o peso deve ser monitorado ao longo da internação para verificar a adequação das estimativas de energia e proteína. É amplamente reconhecido que pacientes com doenças críticas apresentam alterações significativas nos fluidos corporais, portanto, uma avaliação do estado hídrico deve ser considerada ao verificar o peso, e um peso pré-admissão confiável deve ser determinado o mais breve possível (por exemplo, revisando prontuários médicos anteriores; perguntando ao paciente, à família e/ou ao médico da família) para que seja possível quantificar as mudanças ao longo da internação hospitalar. Os desafios da medição e monitoramento da massa muscular à beira do leito em pacientes críticos já foram descritos anteriormente. 

Resumidamente, embora avaliações indiretas da massa muscular (antropometria e avaliação física subjetiva) e análise de bioimpedância sejam fáceis e rápidas de realizar à beira do leito, esses métodos são influenciados pelo estado de hidratação e carecem de validade quando comparados a um método de referência de avaliação muscular em UTI. 

A ultrassonografia mostra-se promissora como uma ferramenta útil à beira do leito para identificar a depleção muscular e monitorar mudanças ao longo do tempo, embora atualmente não existam pontos de corte reconhecidos para definir o ponto de medição derivado da ultrassonografia de baixa massa muscular e perda muscular clinicamente significativa e, como tal, ainda não pode ser recomendada para uso rotineiro na prática clínica.

O PAPEL DA EQUIPE DE SAÚDE 
Fundamental para o cuidado nutricional é uma equipe adequadamente treinada com conhecimento em nutrição clínica e, quando disponível, um nutricionista experiente; A presença de um nutricionista demonstrou melhorar o uso da alimentação combinada para atingir as metas energéticas e melhorar os resultados dos pacientes.78 No entanto, atingir as metas nutricionais para pacientes com doença crítica persistente não será possível sem o apoio de uma equipe multidisciplinar mais ampla (por exemplo, médicos, enfermeiros, fonoaudiólogos, psicólogos e fisioterapeutas). Como não existem modelos de atendimento definidos especificamente para esses pacientes, a consistência e a padronização do atendimento com definições claras de funções, conforme descrito na abordagem TeamSTEPPS,79 devem ser consideradas pela equipe de saúde. Uma abordagem de equipe personalizada, na qual um profissional de saúde da atenção primária é designado para um paciente com doença crítica persistente como o principal ponto de contato, pode ser um modelo de atendimento apropriado quando os recursos662

FONTE:

1. Viner Smith et al. Nutrition considerations for patients with persistent critical illness: A narrative review. J Parenter Enteral Nutr. 2024;48:658–666.

2. Matejovic M, Huet O, Dams K, et al. Medical nutrition therapy and clinical outcomes in critically ill adults: a European multinational, prospective observational cohort study (EuroPN). Crit Care. 2022;26(1):143.

3. Viana MV, Pantet O, Bagnoud G, et al. Metabolic and nutritional characteristics of long‐stay critically ill patients. J Clin Med. 2019;8(7):985

4.  Veraar C, Geilen J, Fischer A, et al. Timing of parenteral nutrition in ICU patients: a transatlantic controversy. Clin Nutr ESPEN. 2021;46: 532‐538.

5. Oana A Tatucu-Babet, Emma J Ridley. How much underfeeding can the critically ill adult patient tolerate? Journal of Intensive Medicine 2022;69–77.

6.  Preiser JC, Ichai C, Orban JC, Groeneveld J. Metabolic response to the stress of critical illness. Br J Anaesth. 2014;113:945–54.

7. Desarmenien M, Blanchard‐Courtois A, Ricou B. The chronic critical illness: a new disease in intensive care. Swiss Med Wkly2016;146(4142):w14336.

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13. Pennings B, Koopman R, Beelen M, Senden JM, Saris WH, van Loon LJ. Exercising before protein intake allows for greater use of dietary protein‐derived amino acids for de novo muscle protein synthesis in both youngand elderly men. Am J Clin Nutr. 2011;93(2):322‐331.

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17. Viana MV, Pantet O, Bagnoud G, et al. Metabolic and nutritionalcharacteristics of long‐stay critically ill patients. J Clin Med. 2019;8(7):985.

18. Skoretz SA, Flowers HL, Martino R. The incidence of dysphagiafollowing endotracheal intubation. Chest. 2010;137(3):665‐673.

19. Moisey LL, Pikul J, Keller H, et al. Adequacy of protein and energyintake in critically ill adults following liberation from mechanicalventilation is dependent on route of nutrition delivery. Nutr Clin Pract. 2021;36(1):201‐212.

20. Berger MM, Reintam‐Blaser A, Calder PC, et al. Monitoring nutritionin the ICU. Clin Nutr. 2019;38(2):584‐593.

21. Lima J, Foletto E, Cardoso RCB, et al. Ultrasound for measurementof skeletal muscle mass quantity and muscle composition/architec-ture in critically ill patients: a scoping review on studies' aims,methods, and findings. Clin Nutr. 2024;43(1):95‐110.