Mito nº 1: Quando se trata de proteína, mais é sempre melhor.
A proteína é essencial, e consumir a quantidade adequada torna-se particularmente importante com a idade, pois ajuda a manter a massa muscular, os ossos, a função imunológica e a saúde em geral. No entanto, isso não significa que todas as refeições devam ser "ricas em proteínas" ou que o aumento contínuo da ingestão de proteínas produza maiores benefícios.
A resposta do corpo à proteína tem limites, e os benefícios começam a se estabilizar assim que as necessidades de uma pessoa são atendidas. Para adultos geralmente saudáveis, a Ingestão Diária Recomendada (IDR) de proteína é de 0,8 g/kg de peso corporal.
Embora os atletas possam se beneficiar de proteínas adicionais, uma grande meta-análise [1] descobriu que consumir mais de aproximadamente 1,6 g/kg por dia não proporcionou ganho adicional de massa muscular em pessoas que praticam treinamento de resistência.
O objetivo mais útil não é consumir o máximo de proteína possível, mas sim obter o suficiente através de uma variedade de alimentos, deixando espaço para frutas, vegetais, grãos integrais, gorduras e carboidratos, pois a variedade alimentar em si contribui para a saúde.
Mito nº 2: Dietas detox e de sucos eliminam toxinas e reequilibram a flora intestinal.
Há pouquíssimas evidências confiáveis de que dietas detox comerciais melhorem a eliminação de toxinas pelo corpo. O fígado, os rins, os pulmões, o trato gastrointestinal e a pele já desempenham as funções metabólicas e excretoras normais do organismo.
Da mesma forma, lavagens intestinais, enemas de café, chás laxantes e outras formas de "limpeza do cólon" não demonstraram melhorar a saúde geral ou remover resíduos antigos supostamente aderidos ao intestino. Uma revisão sistemática não encontrou evidências rigorosas que apoiem a limpeza do cólon para a promoção da saúde e documentou possíveis complicações, incluindo distúrbios eletrolíticos, infecção e lesão intestinal.
Ernst E. publicouo artigo "Colonic Irrigation and the Theory of Autointoxication: A Triumph of Ignorance over Science" Journal of Clinical Gastroenterology, 1997. Artigo clássico e referência central no debate. Desmonta a base teórica da hidrocolonterapia — a "teoria da autointoxicação" (a ideia de que o cólon acumula toxinas que envenenam o corpo). Conclui que não há evidência científica que sustente essa teoria nem os benefícios alegados do procedimento.
Richards DG, et al.publicaram "Colonic Irrigations: A Review of the Historical Controversy and the Potential for Adverse Effects" The Journal of Alternative and Complementary Medicine 2006;12(4):389–393. Revisão que examina a controvérsia histórica e documenta o potencial de efeitos adversos. Conclui que os benefícios alegados não são comprovados e que o procedimento carrega riscos reais.
Mishori R, et al: "The dangers of colon cleansing" The Journal of Family Practice, 2011;60(8):454–457. Revisão médica que cataloga os riscos documentados do procedimento (distúrbios eletrolíticos, perfuração, infecção, embolia) e afirma que os benefícios prometidos não têm respaldo científico.
"Colon Cleansing and Body Detoxification: Any Evidence of Benefit or Harm?" American Family Physician (AAFP), 2010;81(3):337–341. Publicação de referência da medicina de família que avalia diretamente a pergunta "há evidência de benefício ou dano?". Conclui que faltam evidências de benefício e que existem riscos significativos.
NCCEH — "Adverse effects after medical, commercial, or self-administered colon cleansing procedures" National Collaborating Centre for Environmental Health (Canadá), 2018. Revisão abrangente de evidências sobre efeitos adversos após procedimentos de limpeza do cólon, incluindo os realizados comercialmente (hidrocolonterapia).
Mito nº 3: Um teste de sensibilidade alimentar IgG revela quais alimentos estão inflamando o intestino.
Sociedades de Especialidades em alergia recomendam que não se utilize o teste de imunoglobulina G (IgG) específica para alimentos no diagnóstico de alergias alimentares , intolerâncias alimentares ou sintomas gastrointestinais não especificados.
A presença de IgG específica para alimentos geralmente indica que uma pessoa foi exposta a esse alimento e pode tolerá-lo. Não é uma evidência de que o alimento esteja causando inflamação ou intolerância. Em outras palavras, resultados "positivos" em um painel de IgG específica para alimentos são frequentemente esperados e não demonstram que um alimento esteja "inflamando o intestino".
Embora os kits de teste estejam amplamente disponíveis para compra direta pelo consumidor, é improvável que seus resultados sejam clinicamente significativos. Eles podem até mesmo não identificar uma alergia alimentar real, criando uma falsa sensação de segurança e potencialmente colocando em risco as pessoas que posteriormente consumirem o alérgeno.


