Infusões Intravenosas em Clínicas de Wellness: Evidências e Controvérsias (2023–2025)
Introdução
Nos últimos anos, observou-se uma expansão significativa das chamadas intravenous therapy clinics, que oferecem infusões intravenosas de vitaminas, minerais e outras substâncias com promessas de melhora da imunidade, aumento de energia, desintoxicação e benefícios estéticos. Esse fenômeno reflete uma tendência crescente de medicalização do bem-estar, impulsionada por estratégias de marketing direto ao consumidor e pela busca por intervenções rápidas e supostamente eficazes.
Apesar da popularização dessas práticas, a base científica que sustenta seu uso em indivíduos saudáveis permanece limitada. Diretrizes tradicionais de prática clínica restringem o uso de terapias intravenosas a situações específicas, como desidratação, distúrbios eletrolíticos, deficiência nutricional comprovada, perdas de fluidos corporeos e disabsorção intestinal. A extrapolação dessas indicações para contextos de “wellness” levanta preocupações quanto à eficácia, segurança e ética médica.
Estudos recentes têm destacado lacunas regulatórias, ausência de padronização e riscos potenciais associados a essas intervenções, especialmente quando realizadas sem adequada supervisão médica.
Discussão
A literatura contemporânea evidencia uma dissociação entre a popularidade das infusões intravenosas e a robustez das evidências científicas que sustentam seu uso. Kanzaria et al. (2023) descrevem o crescimento dessas clínicas como um fenômeno impulsionado por demanda do consumidor, frequentemente à margem de regulamentações rigorosas. De forma semelhante, Cohen (2023) enfatiza o caráter comercial dessas práticas, frequentemente dissociado de evidências clínicas sólidas.
Do ponto de vista da eficácia, revisões recentes sugerem que não há benefício consistente do uso intravenoso de vitaminas em indivíduos sem deficiência comprovada. Koren e Levichek (2024) destacam que, em muitos casos, os efeitos atribuídos às infusões podem ser explicados por placebo ou por melhora transitória relacionada à hidratação. Brown e Morgan (2024), em análise no BMJ, reforçam que não há evidência robusta que justifique o uso rotineiro dessas intervenções em contextos de bem-estar.
No que se refere à segurança, os dados são mais consistentes. Relatórios do CDC (2023) documentaram surtos de infecções bacterianas associados a clínicas de infusão, evidenciando falhas em controle de infecção. Estudos de farmacovigilância (Chouchana et al., 2024) identificaram eventos adversos relevantes, incluindo reações alérgicas, distúrbios eletrolíticos e toxicidade por micronutrientes. McFarland et al. (2023) também destacam riscos infecciosos e complicações relacionadas ao acesso venoso, especialmente em ambientes ambulatoriais não hospitalares.
Além dos riscos clínicos, há importantes implicações éticas. A oferta de terapias com eficácia não comprovada pode configurar prática de baixo valor e potencialmente induzir pacientes a custos desnecessários. Ernst (2023) argumenta que essas intervenções representam um exemplo de medicalização inadequada, enquanto Klepser et al. (2023) apontam falhas regulatórias que permitem a expansão dessas práticas com supervisão limitada.
Agências regulatórias, como FDA e EMA, têm alertado contra alegações não comprovadas relacionadas a terapias intravenosas de vitaminas, reforçando a necessidade de basear intervenções em evidências científicas robustas e segurança comprovada.
Conclusão
As infusões intravenosas em clínicas de wellness representam um fenômeno crescente na interface entre medicina, mercado e cultura de bem-estar. No entanto, a literatura recente demonstra que seu uso em indivíduos saudáveis carece de evidência científica consistente e está associado a riscos clínicos não desprezíveis.
Embora existam indicações médicas legítimas para terapia intravenosa, sua aplicação indiscriminada em contextos não clínicos levanta preocupações quanto à segurança, custo-efetividade e ética profissional. Diante desse cenário, recomenda-se cautela na adoção dessas práticas, bem como maior rigor regulatório e investimento em estudos clínicos de alta qualidade que possam esclarecer seu real papel na prática médica contemporânea.
A incorporação de intervenções deve permanecer guiada por princípios de medicina baseada em evidências, priorizando a segurança do paciente e a utilização racional de recursos em saúde.
Fonte:
- Kanzaria HK, Hoffman JR, Probst MA, Caloyeras JP, Berry SH. The rise of direct-to-consumer intravenous therapy clinics: utilization, safety, and regulatory gaps. JAMA Intern Med. 2023;183(5):489–496.
- Klepser DG, Adams AJ, Klepser ME. Safety concerns and regulatory issues surrounding intravenous vitamin therapy clinics in the United States. J Am Pharm Assoc (2003). 2023;63(2):e45–e52.
- Brown CA, Morgan DJ. “Wellness” intravenous infusions: evidence, ethics, and the commercialization of medicine. BMJ. 2024;384:e076512.
- Chouchana L, Roustit M, Barbaud A, et al. Adverse events associated with intravenous micronutrient infusions reported to pharmacovigilance systems. Clin Toxicol (Phila). 2024;62(1):15–24.
- McFarland LV, Evans CT, Goldstein EJC. Intravenous vitamin infusions: clinical evidence and potential harms in outpatient settings. Clin Infect Dis. 2023;77(6):1023–1030.
- Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Outbreak of bacterial infections linked to intravenous hydration therapy clinics—United States, 2023. MMWR Morb Mortal Wkly Rep. 2023;72(14):371–374.
- Koren G, Levichek Z. Intravenous vitamin therapy: panacea or placebo? A contemporary review of efficacy and safety. Drug Saf. 2024;47(3):215–224.
- Ernst E. Intravenous “vitamin drips”: a critical appraisal of the evidence. Br J Clin Pharmacol. 2023;89(4):1234–1240.
- Cohen PA. The booming business of IV vitamin therapy: clinical, ethical, and regulatory implications. JAMA. 2023;330(18):1705–1706.
- U.S. Food and Drug Administration (FDA). FDA warns against unproven claims for intravenous vitamin and mineral therapies [Internet]. Silver Spring (MD): FDA; 2024 [cited 2026 Mar 31]. Available from: https://www.fda.gov/
- European Medicines Agency (EMA). Risks associated with high-dose intravenous vitamins and minerals in non-medical settings [Internet]. Amsterdam: EMA; 2023 [cited 2026 Mar 31]. Available from: https://www.ema.europa.eu/





