terça-feira, 31 de março de 2026

Infusões Injetáveis; mito ou ciência II

 


Infusões Intravenosas em Clínicas de Wellness: Evidências e Controvérsias (2023–2025)

Introdução

Nos últimos anos, observou-se uma expansão significativa das chamadas intravenous therapy clinics, que oferecem infusões intravenosas de vitaminas, minerais e outras substâncias com promessas de melhora da imunidade, aumento de energia, desintoxicação e benefícios estéticos. Esse fenômeno reflete uma tendência crescente de medicalização do bem-estar, impulsionada por estratégias de marketing direto ao consumidor e pela busca por intervenções rápidas e supostamente eficazes.

Apesar da popularização dessas práticas, a base científica que sustenta seu uso em indivíduos saudáveis permanece limitada. Diretrizes tradicionais de prática clínica restringem o uso de terapias intravenosas a situações específicas, como desidratação, distúrbios eletrolíticos, deficiência nutricional comprovada, perdas de fluidos corporeos e disabsorção intestinal. A extrapolação dessas indicações para contextos de “wellness” levanta preocupações quanto à eficácia, segurança e ética médica.

Estudos recentes têm destacado lacunas regulatórias, ausência de padronização e riscos potenciais associados a essas intervenções, especialmente quando realizadas sem adequada supervisão médica.

Discussão

A literatura contemporânea evidencia uma dissociação entre a popularidade das infusões intravenosas e a robustez das evidências científicas que sustentam seu uso. Kanzaria et al. (2023) descrevem o crescimento dessas clínicas como um fenômeno impulsionado por demanda do consumidor, frequentemente à margem de regulamentações rigorosas. De forma semelhante, Cohen (2023) enfatiza o caráter comercial dessas práticas, frequentemente dissociado de evidências clínicas sólidas.

Do ponto de vista da eficácia, revisões recentes sugerem que não há benefício consistente do uso intravenoso de vitaminas em indivíduos sem deficiência comprovada. Koren e Levichek (2024) destacam que, em muitos casos, os efeitos atribuídos às infusões podem ser explicados por placebo ou por melhora transitória relacionada à hidratação. Brown e Morgan (2024), em análise no BMJ, reforçam que não há evidência robusta que justifique o uso rotineiro dessas intervenções em contextos de bem-estar.

No que se refere à segurança, os dados são mais consistentes. Relatórios do CDC (2023) documentaram surtos de infecções bacterianas associados a clínicas de infusão, evidenciando falhas em controle de infecção. Estudos de farmacovigilância (Chouchana et al., 2024) identificaram eventos adversos relevantes, incluindo reações alérgicas, distúrbios eletrolíticos e toxicidade por micronutrientes. McFarland et al. (2023) também destacam riscos infecciosos e complicações relacionadas ao acesso venoso, especialmente em ambientes ambulatoriais não hospitalares.

Além dos riscos clínicos, há importantes implicações éticas. A oferta de terapias com eficácia não comprovada pode configurar prática de baixo valor e potencialmente induzir pacientes a custos desnecessários. Ernst (2023) argumenta que essas intervenções representam um exemplo de medicalização inadequada, enquanto Klepser et al. (2023) apontam falhas regulatórias que permitem a expansão dessas práticas com supervisão limitada.

Agências regulatórias, como FDA e EMA, têm alertado contra alegações não comprovadas relacionadas a terapias intravenosas de vitaminas, reforçando a necessidade de basear intervenções em evidências científicas robustas e segurança comprovada.

Conclusão

As infusões intravenosas em clínicas de wellness representam um fenômeno crescente na interface entre medicina, mercado e cultura de bem-estar. No entanto, a literatura recente demonstra que seu uso em indivíduos saudáveis carece de evidência científica consistente e está associado a riscos clínicos não desprezíveis.

Embora existam indicações médicas legítimas para terapia intravenosa, sua aplicação indiscriminada em contextos não clínicos levanta preocupações quanto à segurança, custo-efetividade e ética profissional. Diante desse cenário, recomenda-se cautela na adoção dessas práticas, bem como maior rigor regulatório e investimento em estudos clínicos de alta qualidade que possam esclarecer seu real papel na prática médica contemporânea.

A incorporação de intervenções deve permanecer guiada por princípios de medicina baseada em evidências, priorizando a segurança do paciente e a utilização racional de recursos em saúde.

Fonte:

  1. Kanzaria HK, Hoffman JR, Probst MA, Caloyeras JP, Berry SH. The rise of direct-to-consumer intravenous therapy clinics: utilization, safety, and regulatory gaps. JAMA Intern Med. 2023;183(5):489–496.
  2. Klepser DG, Adams AJ, Klepser ME. Safety concerns and regulatory issues surrounding intravenous vitamin therapy clinics in the United States. J Am Pharm Assoc (2003). 2023;63(2):e45–e52.
  3. Brown CA, Morgan DJ. “Wellness” intravenous infusions: evidence, ethics, and the commercialization of medicine. BMJ. 2024;384:e076512.
  4. Chouchana L, Roustit M, Barbaud A, et al. Adverse events associated with intravenous micronutrient infusions reported to pharmacovigilance systems. Clin Toxicol (Phila). 2024;62(1):15–24.
  5. McFarland LV, Evans CT, Goldstein EJC. Intravenous vitamin infusions: clinical evidence and potential harms in outpatient settings. Clin Infect Dis. 2023;77(6):1023–1030.
  6. Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Outbreak of bacterial infections linked to intravenous hydration therapy clinics—United States, 2023. MMWR Morb Mortal Wkly Rep. 2023;72(14):371–374.
  7. Koren G, Levichek Z. Intravenous vitamin therapy: panacea or placebo? A contemporary review of efficacy and safety. Drug Saf. 2024;47(3):215–224.
  8. Ernst E. Intravenous “vitamin drips”: a critical appraisal of the evidence. Br J Clin Pharmacol. 2023;89(4):1234–1240.
  9. Cohen PA. The booming business of IV vitamin therapy: clinical, ethical, and regulatory implications. JAMA. 2023;330(18):1705–1706.
  10. U.S. Food and Drug Administration (FDA). FDA warns against unproven claims for intravenous vitamin and mineral therapies [Internet]. Silver Spring (MD): FDA; 2024 [cited 2026 Mar 31]. Available from: https://www.fda.gov/
  11. European Medicines Agency (EMA). Risks associated with high-dose intravenous vitamins and minerals in non-medical settings [Internet]. Amsterdam: EMA; 2023 [cited 2026 Mar 31]. Available from: https://www.ema.europa.eu/

terça-feira, 24 de março de 2026

Estresse engorda ?

Clinicamente, a obesidade é diagnosticada em indivíduos cujo Índice de Massa Corporal (IMC) excede 30 kg/m². Ela é caracterizada por uma expansão excessiva do tecido adiposo por meio de hiperplasia e hipertrofia dos adipócitos, a fim de armazenar quantidades excessivas de lipídios.

À medida que o tecido adiposo aumenta, ele secreta adipocinas e citocinas pró-inflamatórias de maneira disfuncional, juntamente com uma maior liberação de ácidos graxos livres que contribui para uma inflamação crônica de baixo grau e o início da resistência à insulina, dislipidemia e outros distúrbios metabólicos relacionados à obesidade. A obesidade também envolve um eixo HPA disfuncional, perfis de secreção de cortisol (hormonios do estresse) alterados e ritmos diurnos de cortisol salivar. 

Os glicocorticoides (hormonios do estresse) participam de vários processos dentro do tecido adiposo, incluindo adipogênese,  metabolismo, inflamação e produção de adipocinas. Níveis prolongados e excessivos de cortisol têm sido associados a maior peso corporal, obesidade, expansão do tecido adiposo central (particularmente visceral), redução do tecido adiposo subcutâneo e comprometimento do tecido adiposo marrom

Notavelmente, a expansão da adiposidade visceral tem sido mais fortemente associada a distúrbios metabólicos relacionados à obesidade, como resistência à insulina, dislipidemia, diabetes mellitus e complicações cardiovasculares. 

O uso crônico de corticosteroides está diretamente correlacionado com o ganho de peso abdominal, e a própria obesidade está ligada a um uso significativamente maior de glicocorticoides.

Embora os níveis de cortisol no sangue, saliva e urina não tenham demonstrado uma relação consistente com a obesidade — possivelmente devido ao padrão circadiano de secreção de cortisol — a concentração de cortisol no cabelo (CCC) demonstrou uma associação estável. 

Especificamente, a CCC correlaciona-se positivamente com o IMC e a relação cintura-quadril, com um aumento observado de 9,8% na CCC associado a um IMC 2,5 kg/m² maior.  

Como o cabelo cresce aproximadamente 1 cm por mês, a CCC reflete a exposição ao cortisol a longo prazo e, portanto, indica a função do eixo HPA por um período prolongado. 

Valores mais altos de CCC foram encontrados em indivíduos obesos em comparação com aqueles com sobrepeso ou peso normal, e essas medidas elevadas de CCC também estão associadas a uma maior prevalência de síndrome metabólica. 

Mesmo que os níveis elevados de glicocorticoides (GC) impulsionem as mudanças mencionadas no corpo humano, as respostas a incrementos idênticos de GC podem variar entre os indivíduos devido a diferenças na sensibilidade aos GC. Consequentemente, as respostas aos glicocorticoides dependem não apenas da concentração de glicocorticoides, mas também da sua disponibilidade e da sensibilidade dos receptores.

Embora ainda não esteja totalmente elucidado, tanto os receptores dos glicocorticóides (GR) quanto dos hormônios mineralocorticóides (MR) parecem estar significativamente envolvidos na patogênese da obesidade. Polimorfismos no gene NR3C1, que codifica o GR, levam a variações na sensibilidade aos glicocorticoides (GC), nos perfis metabólicos e na composição corporal, representando, portanto, potenciais fatores de risco para doenças relacionadas à obesidade e perfis cardiometabólicos adversos. Dois polimorfismos, N363S e BclI, estão associados ao aumento da sensibilidade aos GC e correlacionam-se com perfis lipídicos desfavoráveis, obesidade abdominal, hiperinsulinemia e hipertensão. 

Por outro lado, os polimorfismos ER22/23EK e 9β mostram maior resistência aos GC e estão ligados a perfis metabólicos mais favoráveis, incluindo menor obesidade central. Em homens, esses polimorfismos foram associados ao aumento da altura e da força muscular, enquanto em mulheres, estão ligados a menores circunferências da cintura e do quadri. 

A sensibilidade aos glicocorticoides pode ser avaliada in vivo por meio do teste de supressão com dexametasona ou in vitro usando a reação em cadeia da polimerase quantitativa com transcrição reversa (RT-qPCR). Esses testes auxiliam na avaliação dos fatores de risco para várias doenças metabólicas e na previsão de respostas a terapias direcionadas ao receptor de glicocorticoides, bem como na probabilidade de efeitos adversos — como distúrbios na homeostase da glicose — durante o tratamento com hormônios do córtex adrenal. No entanto, mais pesquisas são necessárias para confirmar sua utilidade clínica.

O MR também desempenha um papel fundamental no tecido adiposo, particularmente durante a diferenciação dos adipócitos, na regulação da secreção de adipocinas e da autofagia, e na adipogênese induzida por corticosteroide. À medida que os adipócitos amadurecem, a expressão do MR aumenta. A ativação do MR tem efeitos prejudiciais no tecido adiposo, incluindo hipertrofia dos adipócitos, aumento da infiltração de macrófagos e polarização pró-inflamatória, aumento da expressão de adipocinas pró-inflamatórias, disfunção mitocondrial, produção excessiva de espécies reativas de oxigênio (ROS) e comprometimento dos processos de "browning". Quando a ativação do MR é excessiva — como na obesidade, onde a expressão do MR nos adipócitos está elevada — ela promove os processos disfuncionais característicos da síndrome metabólica, incluindo aumento da massa gorda, disfunção endotelial, estresse oxidativo e inflamação. 

Por outro lado, estudos mostram que a redução da expressão de MR em pré-adipócitos viscerais humanos primários interrompe sua diferenciação e reduz a expressão de PPARγ, um regulador transcricional chave da adipogênese. Pacientes obesos apresentam aumento da expressão de MR em adipócitos, tanto no tecido adiposo visceral quanto no subcutâneo, com maior expressão entre os adipócitos viscerais. Pesquisas indicam que a aplicação de dexametasona eleva os níveis de leptina e adiponectina, enquanto reduz as citocinas pró-inflamatórias (por exemplo, IL-6, TNF e MCP1). Por outro lado, a aldosterona aumenta a expressão de citocinas pró-inflamatórias (PAI-1 e MCP1) e suprime a expressão de adiponectina.

Níveis elevados de DHEA têm sido associados a uma menor prevalência de obesidade em homens e mulheres, bem como a menor acúmulo de gordura abdominal em homens. Em contrapartida, níveis baixos de DHEA correlacionam-se com maior adiposidade e maior incidência de várias doenças relacionadas à idade, incluindo obesidade, diabetes tipo 2 e aterosclerose. 





Vários estudos que examinam o impacto do DHEA no tecido adiposo sugerem que ele inibe a proliferação e diferenciação dos adipócitos, estimula a hidrólise de triacilgliceróis, aumenta a captação de glicose, suprime a atividade da 11-βHSD1 e a síntese de leptina e regula positivamente a expressão do gene da adiponectina.

O estresse crônico ocorre quando o estressor persiste por um longo período de tempo e afeta negativamente o funcionamento fisiológico e psicológico do indivíduo. O estresse crônico acelera o envelhecimento e promove o desenvolvimento de doenças relacionadas à idade, especialmente a doença de Alzheimer. 

A exposição a estressores crônicos afeta o eixo HPA de maneira semelhante ao envelhecimento, devido aos altos níveis de cortisol observados em ambos os casos. O hipercorticolismo observado durante o estresse crônico afeta a função cerebral por meio de diversos mecanismos (Figura 7). Além disso, altos níveis de cortisol levam a uma diminuição do volume do hipocampo (HC), córtex pré-frontal (PFC) e regiões têmporo-parieto-occipitais e a um aumento do volume da amígdala, que clinicamente se manifesta como ansiedade e comprometimento cognitivo. 



É importante ressaltar que o HC e o PFC regulam o ritmo diurno do cortisol, inibindo predominantemente a atividade do eixo límbico-HPA, enquanto a amígdala parece ativar a resposta ao estresse.

Fonte:

1. Erceg N et al. The Role of Cortisol and Dehydroepiandrosterone in Obesity, Pain, and Aging. Diseases 2025;13:42.

sexta-feira, 20 de março de 2026

Infecção do Cateter em pacientes com Nutrição Parenteral: PICCs x Port a Cath

Meta análise publicada em 2026.

Dez estudos relataram os efeitos de acesso venoso central de inserção periférica (PICCs) e cateteres venosos centrais (CVCs) tunelizados na incidência de infecção de corrente sanguinea relacionada a cateteres centrais (CRBSI) com base no risco por paciente. 



Observou-se que o uso do PICC associou-se a um risco significativamente menor de CRBSI em comparação com CVCs tunelizados (modelo de efeitos fixos: RR = 0,40, IC 95% 0,33–0,49; modelo de efeitos aleatórios: RR = 0,38, IC 95% 0,29–0,50; ambos p < 0,001) (Figura 2).

A taxa média de CRBSI foi de 0,77 por 1.000 dias de PICC (variação: 0,00–1,96 por 1.000 dias de PICC) e 1,01 por 1.000 dias de CVC tunelizado (variação: 0,41–1,93 por 1.000 dias de CVC tunelizado), indicando uma incidência consistentemente menor associada aos PICCs.

A análise de subgrupos por país mostrou resultados semelhantes na maioria das regiões, incluindo EUA, Espanha, Canadá, França e Dinamarca, sem diferenças significativas entre PICCs e CVCs tunelizados. 

Cateter tunelizado

Em contraste, Itália e Polônia não demonstraram uma diferença estatisticamente significativa entre os dois tipos de cateter.

FIGURA 2 - gráfico da incidência de CRBSI entre os grupos de PICCs e cateteres tunelizados

A escolha entre PICCs e CVCs tunelizados para nutrição parenteral domiciliar continua sendo um tema de importante debate clínico. 

Essa controvérsia surge das diferenças nos riscos de complicações, conforto do paciente e custo-efetividade. Portanto, determinar qual método de inserção do cateter proporciona melhores resultados é de importância crítica. 

Nesta atual metanálise, descobriu-se que os PICCs estão associados a um menor risco de infecção da corrente sanguínea relacionada ao cateter (CRBSI) em comparação com os CVCs tunelizados em pacientes que recebem nutrição parenteral domiciliar.

O menor risco de CRBSI observado associado aos PICCs pode ser explicado por vários motivos plausíveis. Primeiro, a inserção periférica pode reduzir o risco de contaminação do procedimento, pois o local da punção é mais acessível e mais fácil de manter assepticamente.

Segundo, a colocação do PICC é geralmente menos invasiva e frequentemente realizada à beira do leito com auxílio de ultrassom, o que tem sido associados a menos complicações relacionadas à inserção e tempos de procedimento mais curtos — fatores que podem reduzir o risco de infecção. 

Além disso, as características do design do cateter podem contribuir para diferenças no risco de infecção da corrente sanguínea relacionada ao cateter (CRBSI). Os cateteres PICC usados ​​para nutrição parenteral domiciliar são mais frequentemente de lúmen único e de menor diâmetro, características que foram associadas a menores taxas de colonização intraluminal (2 3).

No entanto, os cateteres venosos centrais tunelizados são mais frequentemente selecionados para pacientes com maior gravidade da doença, acesso venoso periférico precário ou terapia prolongada ou complexa prevista. Como a maioria dos estudos incluídos foi observacional e não apresentou ajuste para gravidade da doença, indicação do cateter e estado funcional, não se pode excluir a presença de fatores de confusão residuais.


Embora os resultados desta meta-análise indiquem que os PICCs podem estar associados a um menor risco de infecção da corrente sanguínea relacionada ao cateter (CRBSI) em comparação com os cateteres venosos centrais tunelizados em pacientes recebendo nutrição parenteral domiciliar, os estudos disponíveis são observacionais, apresentando um risco substancial de viés e fatores de confusão residuais, o que levou a uma certeza muito baixa das evidências. 

Ensaios clínicos randomizados controlados de alta qualidade e bem delineados, com definições padronizadas de CRBSI e relato abrangente de variáveis ​​relacionadas ao cateter são urgentemente necessários para confirmar esses achados e orientar estratégias ideais de acesso vascular no cuidado com nutrição parenteral domiciliar.

Fonte: 

1. Zheng Y-L, Wang Y, Qi S-P, Zhang W and Lin P-Y. Comparison of catheter-related bloodstream infection between peripherally inserted central catheters and tunneled central venous catheters in patients receiving home parenteral nutrition: a meta-analysis. Front. Nutr. 2026;13:174241.

2. Reynolds H, Gowardman J, Woods C. Care bundles and peripheral arterial catheters. Br J Nurs. 2024;33:S34–41. 

3. Vilao A, Castro C, Fernandes JB. Nursing interventions to prevent complications in patients with peripherally inserted central catheters: a scoping review. J Clin Med. 2024;14:89. 

quinta-feira, 19 de março de 2026

The Quiet Revival nos Hospitais

Inesperadamente, têm aumentado a procura pela religião católica em muitas partes do mundo, nos ultimos anos. Esse fenômeno, ainda não compreendido totalmente, está sendo chamado de "The Quiet Revival" (Renascer Silencioso") e se faz notar mais claramente entre a geração Z, milemnial. 

Nós notamos isso em nossos alunos de medicina e da Residência Médica. Isso decorre, tambem em decorrênncia da crise existencial que assola a humanidade. Afinal, taxas elevadas de problemas de saúde mental foram identificadas em estudantes de medicina [2]. Esse sofrimento mental afeta a vida pessoal desses estudantes e tem sérias implicações para seu treinamento e desenvolvimento profissional [1]. As evidências comprovam que os problemas de saúde mental entre estudantes de medicina são significativamente maiores do que na população em geral (Soares et al., 2022).

Visando superar esses problemas, os estudantes tendem a usar estratégias preventivas, como exercícios físicos, meditação, grupos de apoio e também cultivar crenças espirituais. De fato, o papel das crenças religiosas entre estudantes de medicina ainda está sob investigação, com resultados distintos. Estudos mostraram que a espiritualidade está associada a maior satisfação com a vida e menor burnout (Wachholtz & Rogoff, 2013), menor ideação suicida (Vitorino et al., 2023), ausência de doenças mentais (Pillay et al., 2016) e níveis mais baixos de ansiedade (Gonçalves et al., 2018). Por outro lado, também existem resultados não significativos (Dias et al., 2022; Rammouz et al., 2023) e resultados negativos (ou seja, o enfrentamento religioso negativo foi associado a maior ideação suicida) (Vitorino et al., 2023).

Os resultados de uma pesquisa nos USA demonstram que a religião é um aspecto proeminente das identidades autodeclaradas dos médicos internistas dos EUA [3]. A maioria dos participantes declarou ter alguma afiliação religiosa, e a maioria dos médicos entrevistados declarou acreditar em Deus e praticar a oração pelo menos uma vez por semana fora de um local de culto. Esses resultados são semelhantes aos da população dos EUA, embora a diversidade religiosa da nossa amostra tenha sido maior do que a da população dos EUA. Esses resultados também estão de acordo com o que outros pesquisadores descobriram: as identidades religiosas dos médicos dos EUA são mais diversas e têm maior probabilidade de serem afiliadas a religiões sub-representadas nos EUA.

RESULTADOS: De 1421 médicos de medicina interna selecionados aleatoriamente [4], 629 responderam a um questionário (taxa de resposta de 44,3%). Os médicos tinham uma mediana de 23 (intervalo interquartil, 15-29) anos de prática; 376 de 617 (60,9%) eram homens. Um total de 299 dos 617 respondentes (48,5%) eram hospitalistas, enquanto 307 de 618 (49,7%) eram médicos de atenção primária. Um total de 424 dos 626 respondentes (67,7%) relataram ter vivenciado um momento sagrado com um paciente. Dos 421 respondentes que forneceram respostas adicionais, 19 (4,5%) frequentemente ou sempre discutiam essas experiências com colegas. Os fatores associados ao maior aumento da probabilidade de vivenciar um momento sagrado incluíram considerar-se uma pessoa muito espiritual (razão de chances [RC], 2,23; IC 95%, 1,44-3,44; P < 0,001) e ter um forte senso de propósito na vida (RC, 1,94; IC 95%, 1,36-2,76; P < 0,001) e no trabalho (RC, 1,94; IC 95%, 1,35-2,79; P < 0,001). Comparados com aqueles que vivenciam momentos sagrados com menos frequência, os respondentes que vivenciam momentos sagrados algumas vezes por ano ou com mais frequência apresentaram menor probabilidade de burnout extremo (RC, 0,29; IC 95%, 0,14-0,60; P = 0,001). Discutir momentos sagrados com colegas foi associado a menores chances de burnout (OR, 0,62; IC 95%, 0,40-0,95; P = 0,03).

Existem trabalhos que demonstram que os médicos estão encorajados a realizar uma oração se solicitados. Um estudo de 476 médicos americanos descobriu que 77% estariam dispostos a orar com seus pacientes se os pacientes pedissem oração (Monroe MH, Bynum D, Susi B, Phifer N, Schultz L, Franco M, MacLean CD, Cykert S, Garrett J. Primary care physician preferences regarding spiritual behavior in medical practice Arch Intern Med. 2003 Dec 8-22;163(22):2751- 6.doi:10.1001/archinte.163.22.2751.).

A Resolução CFM 1.805/2006 assegura o direito ético do paciente à assistência espiritual e considera dever do médico facilitá-la. O artigo 2º diz: “O doente continuará a receber todos os cuidados necessários para aliviar os sintomas que levam ao sofrimento, assegurada a assistência integral, o conforto físico, psíquico, social e espiritual, inclusive assegurando-lhe o direito da alta hospitalar”. O PARECER CFM nº 2/2011: Não há que existir incompatibilidades entre a fé e a razão, entre a crença e o conhecimento científico no ensino, nem no exercício da profissão médica, desde que respeitados os princípios básicos irrefutáveis da boa prática médica.


Fonte: 

1. Dyrbye LN, Thomas MR, Shanafelt TD. Systematic review of depression, anxiety, and other indicators of psychological distress among U.S. and Canadian medical students. Academic Medicine, 2006;81(4), 354–373 

2. Diego‑Cordero R, Lucchetti ALG, Luccheti G. Religiosity, Mental Health and Quality of Life of Brazilian Medical Students: A 2‑Year Follow‑Up Study. Journal  of Religion and Health 2025; 

3. Collier et al. Spirituality and Religiosity of Internal Medicine Physicians in the USA: Results from a National Survey. J Gen Intern Med 2025;41(2): 431-436. 

4. Ameling J, Houchens N, Greene T, Ratz D, Quinn M, Kuhn L, Saint S. Sacred Moment Experiences Among Internal Medicine Physicians. JAMA Netw Open 2025;8(50): e2513159.

quinta-feira, 5 de março de 2026

Tirzepatida - agora em uma só caneta

O medicamento para emagrecimento TIRZEPATIDA, vendido no Brasil com o nome de MOUNJARO e nos países desenvolvidos com o nome de ZEPBOUND mudou de apresentação por lá.

Agora será vendido não mais em uma caneta por aplicação, mas em apenas um dispositivo para doses semanais (caneta multidose KwikPen). 

Os médicos também são orientados a não compartilhar a caneta KwikPen com Zepbound entre pacientes, mesmo que a agulha seja trocada, para evitar o risco de transmissão de patógenos pelo sangue.

Vai Jejuar? Faça direito!

 O JEJUM tornou-se uma das dietas amis procuradas nos ultimos anos, por vários motivos: saúde, emagrecimento e crescimento espiritual.

É provável que o jejum intermitente não seja superior a outras dietas para perda de peso e pode não levar a uma melhor qualidade de vida, de acordo com uma revisão Cochrane publicada por Luis Ignacio Garegnani, do Instituto Universitário do Hospital Italiano, em Buenos Aires, Argentina, e seus colegas. Garegnani e sua equipe analisaram 22 ensaios clínicos randomizados.

O "jejum intermitente" agrupa diferentes abordagens alimentares que dividem o tempo em períodos regulares de alimentação e jejum, incluindo variantes como jejum em dias alternados, alimentação com restrição de tempo no início e no final do dia, uma refeição por dia e jejum 5:2. Os períodos de jejum e alimentação podem variar bastante dependendo do método.



A revisão fornece evidências de que o jejum intermitente parece ser tão eficaz quanto outras abordagens dietéticas para a perda de peso em pessoas com sobrepeso e obesidade. "Mas, para sermos claros: até o momento, são apenas indícios, não provas", afirmou Jörg Meerpohl, diretor do Instituto de Evidências em Medicina do Centro Médico Universitário de Freiburg, na Alemanha, e diretor da Cochrane Alemanha.

FONTE:

1. Garegnani LI, Oltra G, Ivaldi D, Burgos MA, Andrenacci PJ, Rico S, Boyd M, Radler D, Escobar Liquitay CM, Madrid E. Intermittent fasting for adults with overweight or obesity. Cochrane Database of Systematic Reviews 2026 (2)CD015610.  

Novas diretrizes para a redução da prescrição de medicamentos Psiquiátricos 2026

Recomendações:

1. a utilidade de cada medicamento psicotrópico deve ser reavaliada periodicamente — no mínimo, anualmente — e que uma análise de risco-benefício deve ser realizada antes de qualquer decisão de desprescrição.

2. quando os pacientes tomam vários medicamentos psiquiátricos, apenas uma alteração na prescrição deve ser feita de cada vez.

3. não prescrever e renovar passivamente os tratamentos sem antes avaliar periodicamente o esquema medicamentoso.

4. aproximadamente 50% dos pacientes com transtornos mentais crônicos não aderem bem ao tratamento, os membros do painel concordaram que as decisões sobre a suspensão da medicação por suposta falta de eficácia não devem ser tomadas até que a adesão do paciente seja cuidadosamente avaliada.

5. Benzodiazepínicos devem ser cuidadosamente reavaliados à medida que os pacientes envelhecem e as listas de medicamentos em pacientes idosos devem ser rotineiramente avaliadas quanto à carga anticolinérgica cumulativa.

6. Valproato de sódio possui riscos teratogênicos bem documentados e  OMS desaconselha seu uso em mulheres em idade fértil. 

FONTE:

1. Goldberg JFMcIntyre RSSwartz HA, et al. Psychotropic Medications. A Consensus Statement From the American Society of Clinical Psychopharmacology Task Force. JAMA Netw Open 2026;9;(2):e260043.