quinta-feira, 19 de março de 2026

The Quiet Revival nos Hospitais

Inesperadamente, têm aumentado a procura pela religião católica em muitas partes do mundo, nos ultimos anos. Esse fenômeno, ainda não compreendido totalmente, está sendo chamado de "The Quiet Revival" (Renascer Silencioso") e se faz notar mais claramente entre a geração Z, milemnial. 

Nós notamos isso em nossos alunos de medicina e da Residência Médica. Isso decorre, tambem em decorrênncia da crise existencial que assola a humanidade. Afinal, taxas elevadas de problemas de saúde mental foram identificadas em estudantes de medicina [2]. Esse sofrimento mental afeta a vida pessoal desses estudantes e tem sérias implicações para seu treinamento e desenvolvimento profissional [1]. As evidências comprovam que os problemas de saúde mental entre estudantes de medicina são significativamente maiores do que na população em geral (Soares et al., 2022).

Visando superar esses problemas, os estudantes tendem a usar estratégias preventivas, como exercícios físicos, meditação, grupos de apoio e também cultivar crenças espirituais. De fato, o papel das crenças religiosas entre estudantes de medicina ainda está sob investigação, com resultados distintos. Estudos mostraram que a espiritualidade está associada a maior satisfação com a vida e menor burnout (Wachholtz & Rogoff, 2013), menor ideação suicida (Vitorino et al., 2023), ausência de doenças mentais (Pillay et al., 2016) e níveis mais baixos de ansiedade (Gonçalves et al., 2018). Por outro lado, também existem resultados não significativos (Dias et al., 2022; Rammouz et al., 2023) e resultados negativos (ou seja, o enfrentamento religioso negativo foi associado a maior ideação suicida) (Vitorino et al., 2023).

Os resultados de uma pesquisa nos USA demonstram que a religião é um aspecto proeminente das identidades autodeclaradas dos médicos internistas dos EUA [3]. A maioria dos participantes declarou ter alguma afiliação religiosa, e a maioria dos médicos entrevistados declarou acreditar em Deus e praticar a oração pelo menos uma vez por semana fora de um local de culto. Esses resultados são semelhantes aos da população dos EUA, embora a diversidade religiosa da nossa amostra tenha sido maior do que a da população dos EUA. Esses resultados também estão de acordo com o que outros pesquisadores descobriram: as identidades religiosas dos médicos dos EUA são mais diversas e têm maior probabilidade de serem afiliadas a religiões sub-representadas nos EUA.

RESULTADOS: De 1421 médicos de medicina interna selecionados aleatoriamente [4], 629 responderam a um questionário (taxa de resposta de 44,3%). Os médicos tinham uma mediana de 23 (intervalo interquartil, 15-29) anos de prática; 376 de 617 (60,9%) eram homens. Um total de 299 dos 617 respondentes (48,5%) eram hospitalistas, enquanto 307 de 618 (49,7%) eram médicos de atenção primária. Um total de 424 dos 626 respondentes (67,7%) relataram ter vivenciado um momento sagrado com um paciente. Dos 421 respondentes que forneceram respostas adicionais, 19 (4,5%) frequentemente ou sempre discutiam essas experiências com colegas. Os fatores associados ao maior aumento da probabilidade de vivenciar um momento sagrado incluíram considerar-se uma pessoa muito espiritual (razão de chances [RC], 2,23; IC 95%, 1,44-3,44; P < 0,001) e ter um forte senso de propósito na vida (RC, 1,94; IC 95%, 1,36-2,76; P < 0,001) e no trabalho (RC, 1,94; IC 95%, 1,35-2,79; P < 0,001). Comparados com aqueles que vivenciam momentos sagrados com menos frequência, os respondentes que vivenciam momentos sagrados algumas vezes por ano ou com mais frequência apresentaram menor probabilidade de burnout extremo (RC, 0,29; IC 95%, 0,14-0,60; P = 0,001). Discutir momentos sagrados com colegas foi associado a menores chances de burnout (OR, 0,62; IC 95%, 0,40-0,95; P = 0,03).

Existem trabalhos que demonstram que os médicos estão encorajados a realizar uma oração se solicitados. Um estudo de 476 médicos americanos descobriu que 77% estariam dispostos a orar com seus pacientes se os pacientes pedissem oração (Monroe MH, Bynum D, Susi B, Phifer N, Schultz L, Franco M, MacLean CD, Cykert S, Garrett J. Primary care physician preferences regarding spiritual behavior in medical practice Arch Intern Med. 2003 Dec 8-22;163(22):2751- 6.doi:10.1001/archinte.163.22.2751.).

A Resolução CFM 1.805/2006 assegura o direito ético do paciente à assistência espiritual e considera dever do médico facilitá-la. O artigo 2º diz: “O doente continuará a receber todos os cuidados necessários para aliviar os sintomas que levam ao sofrimento, assegurada a assistência integral, o conforto físico, psíquico, social e espiritual, inclusive assegurando-lhe o direito da alta hospitalar”. O PARECER CFM nº 2/2011: Não há que existir incompatibilidades entre a fé e a razão, entre a crença e o conhecimento científico no ensino, nem no exercício da profissão médica, desde que respeitados os princípios básicos irrefutáveis da boa prática médica.


Fonte: 

1. Dyrbye LN, Thomas MR, Shanafelt TD. Systematic review of depression, anxiety, and other indicators of psychological distress among U.S. and Canadian medical students. Academic Medicine, 2006;81(4), 354–373 

2. Diego‑Cordero R, Lucchetti ALG, Luccheti G. Religiosity, Mental Health and Quality of Life of Brazilian Medical Students: A 2‑Year Follow‑Up Study. Journal  of Religion and Health 2025; 

3. Collier et al. Spirituality and Religiosity of Internal Medicine Physicians in the USA: Results from a National Survey. J Gen Intern Med 2025;41(2): 431-436. 

4. Ameling J, Houchens N, Greene T, Ratz D, Quinn M, Kuhn L, Saint S. Sacred Moment Experiences Among Internal Medicine Physicians. JAMA Netw Open 2025;8(50): e2513159.

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