quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Estamos perto do "fim"?

Em tempos de crise, pode-se cair na tentação da desesperança, como se nunca tivemos tão atormentados e fragilizados.

É fato que tanto a sociedade brasileira, quanto a Igreja Católica, estejam visceralmente divididas e polarizadas. E o termo polarizado explica bem o radicalismo/fanatismo de ambos os lados que, muitas vezes, defendem cegamente seus gurus e pontos de vista. 

Crises, perseguições, heresias e tomentos sempre existiram. Vejamos o século passado.

Na missa do outro dia, o padre disse: "Hoje, enfrentamos uma escolha crucial".   Ele se referia aos desafios da inteligência artificial. A IA representa um desafio, mas é importante entender que os desafios que enfrentamos e as escolhas cruciais que devemos fazer são os mesmos que a humanidade enfrenta repetidamente – desde o princípio.

Costuma-se dizer, por todo lado que agora está mais difícil, que nunca foi como atualmente, que estamos numa “nova era” em que “tudo mudou”.   Essa tendência é exacerbada pela forma como alguns interpretaram as observações contidas na Constituição Pastoral sobre o Mundo Moderno (Gaudium et spes) do Concílio Vaticano II. Em Gaudium et spes 4, lê-se: “Hoje, a humanidade está imersa numa nova etapa da história. Mudanças profundas e rápidas estão se espalhando gradualmente por todo o mundo”.

Contrariando a alegação frequente de que a Gaudium et spes era excessivamente otimista, os padres conciliares advertem: “Como acontece em qualquer crise de crescimento, esta transformação trouxe consigo sérias dificuldades. Assim, embora o homem estenda o seu poder em todas as direções, nem sempre consegue submetê-lo ao seu próprio bem-estar”. Em seguida, mencionam alguns dos graves problemas: a fome persistente, a falta de recursos educacionais, o poder destrutivo das armas atômicas, o aumento do ateísmo – e suas consequências na falta de respeito pela dignidade da pessoa humana.

Os Padres Conciliares daquela época, podem ser desculpados por se surpreenderem com as mudanças ocorridas durante suas vidas. Se você fosse um Padre Conciliar nascido em 1900, quando jovem, teria visto principalmente pessoas viajando na mesma velocidade que as pessoas viajavam desde a época de Cristo: a pé ou a cavalo. Mas quando viajou para o Concílio Vaticano II em 1965, provavelmente teria viajado em um avião a jato, e suas entrevistas no rádio e na televisão poderiam ser transmitidas para o mundo todo.

A humanidade estava a apenas quatro anos de levar homens à Lua.   Teríamos presenciado duas guerras mundiais devastadoras, o Holocausto, o assassinato de milhões na Rússia e na China e a criação de armas atômicas.   Pensamos que estamos enfrentando mudanças, mas elas não são nada comparadas às mudanças enfrentadas por aquela geração.

Embora não devamos desconsiderar os desenvolvimentos surpreendentes que ocorreram no século XX, podemos nos perguntar se houve alguma época que não se considerasse "crucial".

O mundo da Grécia Antiga se considerava culturalmente "fundamental", superando as culturas "bárbaras" que desconheciam a filosofia e a cultura gregas.

Os romanos se consideravam "fundamentais", civilizando o mundo com leis e obras públicas.

Carlos Magno se via como uma figura "fundamental" na luta contra as invasões muçulmanas na Europa.

Os teólogos do século XIII descreveram seu estilo como "moderno" para distingui-lo de seus predecessores.

Os pensadores do Renascimento se consideravam "fundamentais", assim como os pensadores do Iluminismo e os marxistas do século XX.

Todos, assim consideram-se a "cereja do bolo", os mais certos, os mais "modernos". Segundo alguns, a modernidade começou com Galileu e Descartes no século XVI; outros afirmam que foi com Francis Bacon e Thomas Hobbes no século XVII; e outros ainda dizem que a “modernidade” começou com Darwin, Marx e Freud no final do século XIX.

Para Paul Johnson, em Tempos Modernos , este “mundo moderno” começou com os experimentos de Sir Arthur Eddington, que validaram a teoria da relatividade de Albert Einstein. Então, o que significa ser “moderno”? As pessoas costumavam dizer que éramos “pós-modernos”. Mas isso já faz um tempo, de form que será que sabemos o que somos hoje?

Em cada época, afirmava-se que “era uma nova era”, e que “tudo seria diferente agora”. Quando a América foi descoberta, chamaram-na de “Novo Mundo”, e muitos imaginaram que, nesse “novo mundo”, tudo seria diferente. Foi e não foi. As antigas doenças, tanto físicas quanto espirituais, viajaram com eles.

Mas essa questão sobre “momentos cruciais” – quando nos deparamos com “uma encruzilhada” – remonta a tempos ainda mais antigos.   

A escolha entre viver em fidelidade a Deus e agir como administradores de Sua Criação ou tentar viver como seres “autônomos”, tornando-nos “senhores” da Criação, foi uma questão enfrentada por nossos primeiros pais.   Essa escolha é uma que enfrentamos repetidamente ao longo da história. É por isso que essa história é tão fundamental e por que retornamos a ela sempre.

O Retábulo de Isenheim de Matthias Grünewald, [Museu Unterlinden, Colmar, França]

Voltemos, então, à Gaudium et spes . Diante de todas as mudanças pelas quais haviam passado, os Padres Conciliares estavam convencidos de que a ajuda que a Igreja podia oferecer à humanidade era a perene “boa nova” da revelação de Deus em Cristo. Os dois capítulos principais do documento, citados repetidamente pelo Papa São João Paulo II, encontram-se nos capítulos 22 e 24 da Gaudium et spes : “A verdade é que somente no mistério do Verbo encarnado o mistério do homem se ilumina”; e “O Senhor Jesus, quando orou ao Pai: ‘para que todos sejam um... assim como nós somos um’, abriu perspectivas fechadas à razão humana, pois insinuou uma certa semelhança entre a união das Pessoas divinas e a unidade dos filhos de Deus na verdade e na caridade. Essa semelhança revela que o homem, única criatura na Terra que Deus quis para si mesma, não pode encontrar-se plenamente senão por meio de uma sincera doação de si mesmo.”

Estamos diante de uma “escolha crucial”.   Mas não se engane: é uma escolha que fazemos todos os dias.   Podemos escolher tentar ser Deus ou podemos escolher ser “à imagem de Deus”, como Cristo nos revelou. Na medida em que escolhermos ser instrumentos do amor de Deus, tudo ficará bem. Na medida em que escolhermos o caminho de tentar ser Deus , provavelmente enfrentaremos tristeza e morte.   Cada época enfrenta seus próprios desafios. Nossos desafios são novos; a natureza da escolha, não.

Fonte:

1. Gaudium et spes: constituição pastoral sobre a Igreja no mundo de hoje. São Paulo: Paulinas, 1966.

2. Smith R. Facing a "Pivotal Chioce". The Catholic Think 2026. Acessível em: https://www.thecatholicthing.org/2026/10/27/facing-a-pivotal-choice/

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