A obesidade surge de um balanço energético positivo prolongado na homeostase energética do corpo, levando ao acúmulo de excesso de gordura, o que tem vários efeitos negativos na saúde geral.
As proteínas são os macronutrientes que mais saciam e as gorduras as menos [2].
Importância do Exercício Físico:
O peso corporal não é a característica mais importante da obesidade — o acúmulo excessivo de gordura é. Mesmo mantendo um balanço energético positivo por um período prolongado, um indivíduo fisicamente ativo não acumulará energia apenas como gordura, mas também como músculos e outros tecidos.
Além disso, pacientes com obesidade que tentam "perder peso" perderão músculos e tecido adiposo se não apoiarem o processo com atividade física e uma estratégia nutricional adequada, diminuindo o possível efeito positivo da perda de peso.
Tratamentos Emergentes
Novos tratamentos para obesidade, como a manipulação da microbiota intestinal, o uso de agonistas do hormônio PYY, agonistas de receptores duplos e triplos, anticorpos monoclonais e técnicas de manipulação genética, estão transformando o tratamento da obesidade, abordando fatores metabólicos e genéticos.
Examinaremos a terapia genética — particularmente a técnica de repetições palindrômicas curtas regularmente interespaçadas (CRISPR) — em detalhes, devido ao seu potencial inovador para modificação genética precisa, a fim de alcançar efeitos duradouros nas vias relacionadas à obesidade.
As terapias emergentes revisadas estão representadas na Figura abaixo:
Anticorpos Monoclonais
Anticorpos monoclonais são moléculas projetadas em laboratório derivadas de células imunes clonadas, projetadas para replicar a função de anticorpos naturais.
O bimagrumabe, um anticorpo monoclonal humano, tem como alvo e bloqueia o receptor de ativina tipo 2 (ACVR2), promovendo o crescimento do músculo esquelético, melhorando a função mitocondrial e reduzindo a massa gorda.
O bimagrumabe pode ser administrado por via subcutânea semanalmente ou intravenosa uma vez por mês.
Em um estudo randomizado e duplo-cego realizado por Petricoul et al, os efeitos das infusões intravenosas versus subcutâneas foram comparados ao longo de um período de 20 semanas. Ambos os métodos de administração reduziram a massa de gordura corporal em 2–3 kg, demonstrando eficácia equivalente [3].
Heymsfield et al. relataram que o bimagrumabe levou a melhorias significativas na composição corporal em 78 indivíduos com obesidade. Os participantes que receberam bimagrumabe apresentaram uma redução substancial na massa gorda (-20,5%) em comparação ao grupo placebo (-0,5%). Essa redução foi acompanhada por um aumento na massa magra (+3,6%) no grupo bimagrumabe, enquanto o grupo placebo apresentou um ligeiro declínio (-0,8%). Além disso, a circunferência da cintura diminuiu em média 9,0 cm, contrastando com um pequeno aumento de 0,5 cm no grupo placebo. Os níveis de HbA1c também melhoraram significativamente, com uma redução de -0,76% para o bimagrumabe versus -0,04% no grupo placebo, indicando efeitos positivos no controle glicêmico. A incidência de eventos adversos foi semelhante entre os grupos bimagrumabe e placebo.
No entanto, um número maior de participantes no grupo bimagrumabe apresentou efeitos adversos específicos, incluindo espasmos musculares, diarreia leve, infecções respiratórias superiores, náuseas, hipertensão e aumento dos níveis de lipase. Notavelmente, espasmos musculares e diarreia foram os efeitos colaterais mais frequentes, sendo a diarreia mais comum após a primeira dose e menos frequente nas doses subsequentes [4].
Além disso, o bimagrumabe afeta as células gonadotrópicas na adeno-hipófise, levando a alterações nos níveis do hormônio folículo-estimulante (FSH) e do hormônio luteinizante (LH) na corrente sanguínea. Esse efeito, no entanto, não influencia a secreção do hormônio gonadal ou do andrógeno adrenal e é reversível [5].
Nunn et al. compararam os efeitos do bimagrumabe, da semaglutida, de sua combinação e do placebo em camundongos com obesidade.
A administração de bimagrumabe resultou em um aumento de 10% na massa muscular esquelética, com uma redução concomitante na massa gorda.
A semaglutida, por outro lado, diminuiu tanto a massa gorda quanto a massa magra. A combinação de bimagrumabe e semaglutida levou a uma maior perda de peso corporal, especificamente por meio da redução da massa gorda, preservando a massa magra. Além disso, essa combinação resultou em melhores resultados metabólicos [6].
Outro anticorpo monoclonal direcionado ao receptor de actina tipo II é o LAE102. Em modelos pré-clínicos, o LAE102 demonstrou potencial para reduzir a massa gorda, preservando a massa muscular magra.
Atualmente, o medicamento está em fase de avaliação de sua segurança, farmacocinética e imunogenicidade em voluntários saudáveis [7,8].
Modulação da Flora Intestinal
Microbioma Intestinal
O microbioma intestinal é composto por mais de mil espécies bacterianas que influenciam a digestão, absorção e armazenamento de nutrientes no corpo. Essas bactérias também sintetizam vitaminas e desempenham um papel no metabolismo mineral.
Pesquisas sugerem uma ligação entre a composição do microbioma intestinal e a obesidade, uma vez que essa patologia está associada à diminuição da diversidade microbiana e a uma maior proporção de bactérias Firmicutes em relação a Bacteroidetes [18].
A microbiota intestinal influencia a saciedade e a fome por meio de vários mecanismos. Metabólitos e lipopolissacarídeos (LPS) produzidos por bactérias intestinais podem estimular as células enteroendócrinas a liberar mais Colecistocinina (CCK). Além disso, os agonistas do receptor GLP-1 (GLP-1RA) podem alterar a composição da microbiota em direção a um perfil associado à magreza, potencializando os efeitos da perda de peso [19-21]. As bactérias intestinais podem produzir propionato, um ácido graxo de cadeia curta (AGCC) que estimula a liberação de GLP-1 e atua como agonista do receptor 2 de ácidos graxos livres, estimulando a secreção do hormônio supressor do apetite PYY.
O microbioma também pode ter um efeito na sensibilidade à leptina no hipotálamo por meio da inflamação e da sinalização de citocinas associadas a algumas das espécies. Foi demonstrado que a microbiota em ratos afeta a expressão da monoamina oxidase A (MAOA) no hipocampo, uma enzima que depura monoaminas. Além disso, as bactérias intestinais podem criar substâncias neuroativas (dopamina e serotonina), que provavelmente não conseguem atravessar a BHE, mas podem atuar localmente no sistema nervoso entérico.
Modulação da Microbiota:
A modulação da microbiota intestinal representa uma nova abordagem no tratamento da obesidade. A microbiota alterada pode afetar o equilíbrio energético, promovendo a síntese e o armazenamento de lipídios, modulando o apetite central e desencadeando inflamação crônica [23]. Embora a pesquisa nessa área ainda esteja em estágios iniciais, diversos estudos em andamento prometem descobrir intervenções eficazes.
Probióticos
Probióticos são microrganismos vivos que podem beneficiar a saúde do hospedeiro, apoiando a fisiologia do sistema digestivo. Eles podem reforçar a integridade da barreira intestinal e melhorar o metabolismo, diminuindo a permeabilidade intestinal e, assim, reduzindo a inflamação, regulando negativamente citocinas pró-inflamatórias, como IL-6 e TNF, e produzindo AGCCs que têm propriedades anti-inflamatórias e promovem o metabolismo de lipídios. Os probióticos são comumente administrados por meio de alimentos fermentados ou cápsulas orais, sendo o leite e os laticínios os transportadores mais pesquisados. Diferentes cepas probióticas têm efeitos únicos e requisitos de dosagem específicos, sendo Lactobacillus e Bifidobacterium os mais amplamente estudados em relação ao tratamento da obesidade [320]. Outra bactéria importante que pode ser usada como probiótico é a Akkermansia muciniphila. Ela coloniza a camada mucosa do intestino e desempenha um papel importante na regulação do metabolismo basal. Sua redução está associada a diversas doenças em humanos e modelos murinos, incluindo obesidade. Estudos em animais e humanos confirmam sua atividade benéfica no tratamento da obesidade, expondo a possibilidade de seu uso na próxima geração de abordagens terapêuticas para o tratamento de doenças metabólicas. Além da obesidade, acredita-se também que têm um efeito positivo no diabetes tipo 1 e 2, na esteatose hepática, na inflamação intestinal e em alguns tipos de câncer. A eficácia de todos os microrganismos benéficos mencionados depende se são consumidos como suplementos independentes ou integrados em produtos alimentícios.
Uma meta-análise de Perna et al, incluindo 1411 pacientes com sobrepeso ou obesidade e condições metabólicas relacionadas, não encontrou redução no peso corporal devido a intervenções probióticas. No entanto, foi observada uma diminuição no IMC (−0,73 [−1,31, −0,16] kg/m 2), circunferência da cintura (−0,71 [−1,24, −0,19] cm) e circunferência do quadril (−0,73 [−1,16, −0,30] cm) [325].
Outra meta-análise maior com 12.603 participantes relatou que os probióticos ou simbióticos reduziram significativamente o peso corporal (−0,91 [−1,08,−0,75] kg), o IMC (−0,28 [−0,36,−0,21] kg/m 2), a circunferência da cintura (−1,14 [−1,42,−0,87] cm), a massa gorda (−0,92 [−1,05,−0,79] kg) e a porcentagem de gordura corporal (−0,68 [−0,94,−0,42]%) sem afetar a massa corporal magra ou livre de gordura [326].
Uma meta-análise de 2024 por Duan et al., envolvendo 391 adolescentes, mostrou que os probióticos reduziram o IMC (−2,53 [−4,8 a −0,26] kg/m2), a glicemia de jejum (−0,80 [−1,13 a −0,47] mmol/L) e a proteína C reativa (PCR) (−0,24 [−0,43 a −0,05] mg/L). No entanto, não foram observadas alterações significativas no peso, circunferência da cintura, relação cintura-quadril ou níveis de insulina. Notavelmente, a intervenção também aumentou os níveis de colesterol total, triacilglicerídeos (TAG) e colesterol de lipoproteína de baixa densidade (LDL) [327].
Em muitos casos, foi relatado que probióticos causam imunorreatividade, sepse e resistência a antibióticos por transferência genética. Esses efeitos negativos são mais comuns em pacientes imunodeficientes. Alguns efeitos probióticos estão associados a uma cepa altamente específica de microrganismo, dificultando a avaliação da dose e do esquema de tratamento adequados. Portanto, mais estudos são necessários para criar um protocolo e diretrizes adequados sobre o uso de probióticos em pacientes.
Prebióticos
Os prebióticos são componentes indigeríveis que promovem a proliferação de micróbios gastrointestinais, como Bifidobacterium e Lactobacillus. As bactérias intestinais convertem os prebióticos em AGCC e outros metabólitos, melhorando a saúde do hospedeiro ao aumentar a atividade reguladora dos linfócitos T, a absorção de minerais e a secreção de imunoglobulina A pelos linfócitos B. Os prebióticos são compostos principalmente por alimentos fibrosos, como cebola, alho, aspargos e cevada. Eles são categorizados com base em seu estágio de polimerização e fonte alimentar, incluindo frutanos (subdivididos em fruto-oligossacarídeos e inulina), polidextrose, xilo-oligossacarídeos, lactulose, galacto-oligossacarídeos, triphala e ciclodextrinas. Além disso, reduzem o pH intestinal, inibindo a proliferação de bactérias patogênicas, como Escherichia coli e Clostridium perfringens.
Um ensaio clínico controlado por placebo, unicêntrico, com crianças de 7 a 12 anos com sobrepeso ou obesidade investigou o efeito de 16 semanas de intervenção com insulina enriquecida com oligofrutose ou placebo com maltodextrina. Aqueles que consumiram prebióticos apresentaram maior redução no peso corporal (3,1%), gordura corporal (2,4%) e gordura do tronco (3,8%). Além disso, uma maior redução na TGA (19%) foi observada neste grupo [328].
Outro estudo com 45 adultos obesos, com três grupos de estudo (apenas dieta; prebióticos; probióticos), demonstrou que, 1 mês após a intervenção, todos os grupos apresentaram redução significativa no peso, IMC e circunferência da cintura. No entanto, apenas os grupos prebiótico e probiótico apresentaram redução significativa na massa gorda e aumento na força muscular. Além disso, o prebiótico e o probiótico melhoraram significativamente o perfil de insulina em comparação com o grupo que recebeu apenas dieta.
Simbióticos
Simbióticos são combinações de probióticos e prebióticos, tendo um efeito sinérgico na microbiota gastrointestinal. Os prebióticos aumentam a taxa de sobrevivência dos probióticos e apoiam sua colonização no trato digestivo [320].
Uma meta-análise de 2020 de 23 ensaios randomizados descobriu que a intervenção simbiótica levou a uma redução no peso corporal (-0,80 [-1,56 a -0,03] kg) e circunferência da cintura (-2,07 [-3,11 a -1,03] cm). No entanto, nenhum efeito significativo no IMC ou na gordura corporal foi observado. Além disso, a dosagem de probióticos não influenciou a resposta ao tratamento [330].
Transplante de Microbiota Fecal
Embora o transplante de microbiota fecal (TMF) seja indicado principalmente para infecções por Clostridium difficile resistentes a antibióticos, estudos recentes também exploraram seu potencial no tratamento da obesidade, sendo a seleção de doadores a chave para o sucesso [331–333]. O TMF inclui a transferência de matéria fecal de um doador saudável para o trato digestivo do receptor por meio de vários métodos, incluindo colonoscopia, sondas nasojejunais, enemas ou cápsulas orais [331–333].
Numerosos estudos examinaram os efeitos do TMF na perda de peso e na homeostase glicêmica em pacientes com obesidade. Os resultados atuais indicam que o TMF não tem impacto significativo no peso ou no controle do peso. Mais pesquisas são necessárias para avaliar sua eficácia potencial na obesidade e em outras doenças metabólicas.
Terapia Gênica
A terapia gênica envolve a administração de material genético em uma célula para causar um efeito terapêutico, como corrigir um erro no genoma ou dar à célula uma nova função. Isso é alcançado usando um vetor para administrar o gene à célula correta, onde a expressão proteica produz o efeito desejado. O tipo de vetor utilizado é influenciado por seu tropismo tecidual, capacidade de empacotamento, capacidade de produção de vetores e imunogenicidade [9].
A terapia gênica para obesidade utiliza vetores virais (e vetores associados a adenovírus), vetores não virais (lipídios e proteínas), nucleases efetoras semelhantes a ativadores de transcrição (TALEN) e edição direcionada de genoma, incluindo o sistema CRISPR.
Vetores Virais e Vetores Associados a Adenovírus
Os adenovírus são vírus de DNA de fita dupla, sem envelope, com capsídeo icosaédrico, atuando como epissomos sem se integrar ao genoma do hospedeiro. Sua principal desvantagem como vetores em terapia gênica é a alta imunogenicidade. Portanto, uma vez utilizado para a terapia, o sistema imunológico do corpo pode reconhecer o vetor viral como um patógeno e desencadear uma resposta imune, impedindo a reutilização do mesmo vetor para outra terapia gênica [399–401 é 10,11 e 12].
Os vírus adenoassociados (VAA), por outro lado, são vírus de DNA de fita simples, sem envelope, com capsídeo icosaédrico. Eles também atuam como epissomos e são menos imunogênicos do que os adenovírus, consequentemente provocando uma resposta imune geralmente mais fraca em comparação aos vetores virais [299 é 9].
A terapia viral e antiviral pode aprimorar as propriedades de moléculas específicas para o tratamento da obesidade. Por exemplo, o fator de crescimento de fibroblastos 21 (FGF21) desempenha um papel crucial na fisiopatologia da obesidade, e seu potencial terapêutico já foi explorado. No entanto, o FGF21 tem uma meia-vida curta de 1 a 2 horas, limitando seu uso no tratamento. Jimenez et al investigaram a aplicação da terapia gênica usando vetores antivirais em camundongos para produzir FGF21 no tecido adiposo, fígado ou músculo esquelético. Essa abordagem resultou em perda de peso, redução da inflamação e melhora da resistência à insulina em camundongos [402 é 13].
CRISPR-Cas9 na Pesquisa sobre Obesidade: Identificando Genes-Alvo para Terapias Potenciais.
Pesquisas sobre a manipulação genética CRISPR-Cas9 em modelos animais de e estudos in vitro em células humanas forneceram insights valiosos sobre os fatores genéticos que contribuem para a obesidade. Ao eliminar ou modificar sequências e expressões genéticas, pesquisadores podem estudar os efeitos dessas alterações no metabolismo e no armazenamento de gordura. Esse processo não apenas identifica alvos genéticos viáveis para potenciais terapias humanas, mas também permite a exploração das interações gene-ambiente e o impacto das edições genéticas em distúrbios metabólicos associados à obesidade, como o diabetes.
NT: CRISPR-Cas9 é um sistema revolucionário de edição genética que funciona como uma "tesoura molecular" para cortar e modificar o DNA em locais específicos. Ele utiliza uma enzima chamada Cas9, que faz o corte, e um RNA guia (gRNA) que direciona a Cas9 para o local exato no genoma. Descoberto como um sistema de defesa em bactérias, hoje é usado para corrigir genes defeituosos, tratar doenças genéticas e desenvolver novas terapias, como as contra o câncer.
Modelos animais são cruciais nesta pesquisa, permitindo avaliar a segurança, a eficácia e os potenciais efeitos não-alvo da manipulação genética antes de traduzir as descobertas em tratamentos humanos. Por meio desses estudos, obtemos uma compreensão mais profunda da base genética da obesidade, fornecendo uma base para o desenvolvimento de terapias direcionadas. O sistema CRISPR/Cas9, suas vias de administração e os genes estudados estão resumidos na Figura 2.
Figura 2. Abordagens baseadas em CRISPR para o tratamento da obesidade.
Atualmente, estudos estão sendo conduzidos em modelos animais e células humanas in vitro. Diferentes vetores de entrega (adenovírus, vetores não virais e métodos físicos) são usados nesses modelos. A parte inferior da figura explica as abordagens básicas para manipulação genômica com a tecnologia CRISPR, incluindo knockout de genes, regulação negativa, regulação positiva e adição ou reparo de genes. Os principais genes-alvo envolvidos no metabolismo, armazenamento de gordura e termogênese são listados, juntamente com as referências de pesquisa correspondentes.
CRISPR — Repetições Palindrômicas Curtas Regularmente Interespaçadas em Clusters; CRISPRi — Interferência em CRISPR; CRISPRa — Ativação em CRISPR; AAV — vírus adeno-associados; Nrip1 — proteína 1 de interação com o receptor nuclear; IKKβ — um inibidor da subunidade beta da cinase do fator nuclear kappa-B; Irx3 — homeobox 3 de Iroquois; Fabp4 — proteína 4 de ligação a ácidos graxos; Bcl2—linfoma de células B 2; Sim1—mente única 1; Fgf21—fator de crescimento de fibroblastos 21; Fndc5—proteína 5 contendo domínio de fibronectina tipo III; UCP1—proteína desacopladora 1; LEP—leptina; MC4R—receptor de melanocortina 4.
Um estudo notável de Zhu et al. utilizou com sucesso o CRISPR/Cas9 para corrigir uma mutação no gene Lep de camundongos ob/ob, um modelo para obesidade monogênica mórbida em humanos [14]. A correção de uma mutação de um único par de bases (C para T) foi realizada especificamente apenas no tecido adiposo. Embora a taxa de substituição do alelo tenha sido relativamente baixa (1,67%), foi suficiente para restaurar a produção de leptina. Essa restauração suprimiu efetivamente o apetite e melhorou a resistência à insulina. Este estudo destaca o potencial da manipulação genômica mediada pelo CRISPR-Cas9 como uma estratégia terapêutica para o tratamento da obesidade monogênica em humanos, visando tecidos periféricos como o tecido adiposo.
Outro aspecto importante da pesquisa com o CRISPR-Cas9 é sua capacidade de replicar variações genéticas específicas de humanos associadas à obesidade. Por exemplo, ao introduzir mutações semelhantes às humanas em modelos animais, os pesquisadores podem simular como essas alterações genéticas afetam o metabolismo, o armazenamento de gordura e o balanço energético. Essa abordagem também pode ajudar a identificar o impacto dos SNPs associados à obesidade. A edição desses SNPs em modelos animais permite uma avaliação direta de seu papel na obesidade e em distúrbios metabólicos, abrindo caminho para terapias direcionadas. No estudo de Claussnitzer et al, a abordagem CRISPR/Cas9 foi usada para investigar os efeitos da variante rs1421085 do gene FTO humano, um fator de risco para obesidade. O estudo revelou que essa variante afeta um intensificador de pré-adipócitos, impactando a expressão do homeobox 3 e 5 de Iroquois (IRX3 e IRX5) durante a diferenciação inicial dos adipócitos.
Enquanto a inibição de IRx3 no tecido adiposo de camundongos aumentou o gasto energético e reduziu o peso corporal, a edição de adipócitos humanos portadores do alelo de risco FTO promoveu o escurecimento da gordura, oferecendo uma via translacional para terapias antiobesidade. Da mesma forma, a repressão de Fabp4 mediada por CRISPRi em camundongos obesos usando o sistema adCas9-sgRNA administrado por meio de injeções intraperitoneais não virais levou à perda de peso de 20% e à melhora dos marcadores glicêmicos e hepáticos [15].
Dong et al também aplicaram o CRISPR/Cas9 para investigar o papel funcional de uma variante de risco (SNP rs12454712) associada à obesidade. Eles demonstraram que esse SNP intrônico atua como um intensificador específico de um alelo, regulando a expressão do gene do linfoma de células B 2 (Bcl2). A deleção dessa região intensificadora em adipócitos humanos usando o CRISPR/Cas9 reduziu significativamente a expressão do Bcl2. Em um modelo murino, a menor expressão do Bcl2 no tecido adiposo foi associada a maior ganho de peso em uma dieta rica em gordura, enquanto a redução de Bcl2 nos adipócitos levou ao aumento da apoptose e à redução do acúmulo de gordura. Este estudo destaca o potencial do Bcl2 como um alvo terapêutico para a regulação da obesidade central [16].
Um estudo utilizou O CRISPR/Cas9 para introduzir mutações no gene MC4R humano, V103I (substituição de valina por isoleucina na posição 103) e I251L (substituição de isoleucina por leucina na posição 251), em camundongos. Essas variações reduzem o risco de obesidade em humanos, e camundongos fêmeas com essas alterações genéticas de ganho de função exibiram menos gordura corporal. Camundongos machos e fêmeas portadores dessas mutações apresentaram melhor tolerância à glicose e, em alguns casos, melhor sensibilidade à insulina. No entanto, essas mutações protetoras não protegeram os camundongos da obesidade quando expostos a uma dieta hipercalórica, indicando que uma alimentação saudável continua importante mesmo que queiramos usar essas mutações genéticas favoráveis em futuras terapias humanas.
A haploinsuficiência, em que uma cópia funcional do gene é insuficiente para produzir níveis normais de expressão gênica, representa outro desafio no tratamento da obesidade genética. Um estudo abordou essa questão utilizando a ativação mediada pelo CRISPR (CRISPRa), uma técnica que aumenta a expressão do alelo funcional remanescente. Ao direcionar regiões regulatórias do gene Single-minded 1 (Sim1) ou Mc4r usando uma proteína dCas9 (Cas9 morta) fundida com um ativador transcricional, os pesquisadores aumentaram com sucesso a expressão gênica de ambos os genes.
Eles utilizaram tanto a abordagem do knock-in para inserir a construção do transgene CRISPRa no genoma quanto a administração do transgene por um vetor de vírus adenoassociado recombinante (rAAV). Em ambos os casos, a regulação positiva do Sim1 ou Mc4r pelo transgene CRISPRa resgatou um fenótipo de obesidade haploinsuficiente. Essa abordagem inovadora pode ser a base para futuras terapias gênicas que visem a obesidade causada pela sensibilidade à dosagem gênica.
O potencial terapêutico das miocinas, como a Fgf21 e a proteína 5 contendo o domínio da fibronectina tipo III (Fndc5), na obesidade também foi investigado usando a abordagem CRISPRa.
As miocinas são proteínas secretadas pelos músculos esqueléticos que desempenham papéis significativos no metabolismo lipídico. Pesquisadores empregaram o CRISPRa para ativar seletivamente a Fgf21 e Fndc5 em células musculares, o que promoveu o escurecimento dos adipócitos e reduziu a obesidade em camundongos com obesidade induzida por dieta. Esses resultados sugerem que a ativação de miocinas usando CRISPRa pode ser uma estratégia promissora para futuros tratamentos da obesidade.
A proteína desacopladora 1 (UCP1) desempenha um papel fundamental na termogênese, o processo que converte energia em calor, ocorrendo principalmente no tecido adiposo marrom (TAM). Como tal, a UCP1 e a TAM têm sido o foco de diversos estudos que exploram seu potencial terapêutico.
Em um estudo, Romanelli et al. utilizaram uma construção AAV8-sgRNA-Cas9 para desativar múltiplos genes no tecido adiposo marrom de camundongos. Este tratamento local transduziu mais de 90% dos adipócitos, removeu genes como adiponectina, sintase de ácidos graxos e perilipina 1, e resultou no aumento de FGF21 circulante e na termogênese. Da mesma forma, em suínos, que naturalmente não apresentam expressão de UCP1 e têm dificuldades com a termorregulação, o CRISPR/Cas9 foi usado para inserir uma UCP1 funcional. Esses suínos knock-in apresentaram melhor termorregulação, redução da deposição de gordura e aumento da porcentagem de carcaça magra, sugerindo o potencial para edição de UCP1 em humanos, visto que menor atividade do BAT se correlaciona com maior IMC.
Em outro estudo, uma linhagem de células-tronco humanas editadas pelo CRISPR foi desenvolvida para rastrear a expressão da UCP1, oferecendo promessas para pesquisas futuras no desenvolvimento de gordura marrom humana e modelagem de doenças. Além disso, Wang et al. projetaram adipócitos brancos humanos com superexpressão da UCP1, transformando-os em células semelhantes à gordura marrom. O transplante dessas células em camundongos levou à melhora da tolerância à glicose, à prevenção da obesidade induzida por dieta e ao aumento do gasto energético, abrindo possibilidades para terapias baseadas em células para doenças metabólicas. Esses estudos destacam coletivamente o potencial terapêutico de direcionar a UCP1 para tratamentos de obesidade por meio da termogênese aprimorada e do escurecimento da gordura.
Direções Futuras em Abordagens de Terapia Gênica
A tecnologia CRISPR/Cas9 provou ser uma ferramenta valiosa na pesquisa sobre obesidade, oferecendo recursos precisos de manipulação genética que permitem aos pesquisadores explorar os fundamentos genéticos da obesidade. Estudos direcionados a genes-chave como Lep, Fto, Bcl2, Mc4R, Sim1, Fgf21, Ucp1, Fabp4 e Nrip1 mostraram resultados promissores em modelos animais e células humanas. Esses genes desempenham papéis críticos no metabolismo, armazenamento de gordura e termogênese, com sua modificação levando a efeitos benéficos como melhora da sensibilidade à insulina, aumento do gasto energético e redução do acúmulo de gordura. Tecidos adiposos periféricos, como a gordura marrom e branca, são alvos promissores para edição baseada no CRISPR de genes como Ucp1, Fabp4 e Nrip1 devido à sua relevância metabólica, acessibilidade e menor risco sistêmico.
Abordagens como a CRISPRa e CRISPRi proporcionam flexibilidade adicional ao aumentar ou reprimir a expressão gênica sem alterar o DNA subjacente, aprimorando ainda mais os perfis de segurança.
Além disso, o direcionamento de variações genéticas como as encontradas no FTO e MC4R oferece oportunidades para terapias personalizadas. No futuro, o refinamento dos sistemas de administração baseados no CRISPR e a abordagem de questões de segurança serão essenciais para traduzir essas descobertas em tratamentos humanos eficazes.
A exploração contínua desses genes-alvo, especialmente em tecidos periféricos, tem um potencial significativo para o desenvolvimento de novas terapias baseadas em genes para combater a obesidade e seus distúrbios metabólicos relacionados.
Um marco importante na terapia gênica baseada no CRISPR em humanos é o primeiro ensaio clínico, relatado em 2024, para tratar pacientes com hipercolesterolemia familiar [17]. Uma única infusão periférica direcionada ao gene PCSK9 no fígado reprimiu com sucesso sua expressão, levando a uma redução significativa nos níveis de colesterol de lipoproteína de baixa densidade. Embora não tenha como alvo direto a obesidade, este ensaio exemplifica a viabilidade da administração in vivo de CRISPR em tecidos metabólicos e estabelece um precedente para futuras intervenções que visem vias compartilhadas em doenças metabólicas.
Embora as preocupações quanto aos efeitos a longo prazo e à segurança permaneçam, os resultados deste ensaio clínico inaugural fornecem evidências encorajadoras de que a edição genética in vivo baseada em CRISPR pode ser uma promessa substancial para futuros tratamentos da obesidade.
No entanto, a aplicação clínica da terapia gênica para obesidade requer avaliação completa e o desenvolvimento de diretrizes padronizadas que abordem dosagem, via de administração, farmacodinâmica, farmacocinética, toxicidade e potenciais efeitos colaterais.
Desafios na Tradução Clínica da Edição Gênica
Uma desvantagem dos vetores em terapia gênica é sua potencial imunogenicidade. Vetores virais, como adenovírus ou retrovírus, podem ser reconhecidos como patógenos estranhos, levando o sistema imunológico a desenvolver uma resposta e gerar anticorpos neutralizantes que podem impedir a reutilização do mesmo vetor em futuras terapias gênicas. Isso limita a viabilidade de dosagens repetidas, o que pode ser necessário para condições crônicas.
Em contraste, os AAVs são vírus de DNA com imunogenicidade relativamente baixa que persistem como epissomos. Embora sejam geralmente menos imunogênicos do que os adenovírus, os AAVs ainda podem induzir respostas imunes, particularmente contra suas proteínas do capsídeo, o que representa desafios para a redosagem.
Da mesma forma, quando vetores virais são usados para administrar sistemas CRISPR/Cas, eles podem desencadear reações imunes não apenas contra o próprio vetor, mas também contra proteínas derivadas de bactérias, como a Cas9.
Sistemas de administração não virais, como nanopartículas lipídicas ou eletroporação, tendem a provocar respostas imunológicas mais fracas e podem, portanto, permitir administração repetida, embora a imunogenicidade das proteínas Cas continue sendo uma preocupação.
Mutações fora do alvo continuam sendo uma preocupação fundamental em termos de segurança na aplicação clínica das tecnologias CRISPR-Cas. Essa questão é particularmente importante em ambientes terapêuticos que exigem alta precisão. Para abordar essa questão, diversos métodos sensíveis de detecção em todo o genoma foram desenvolvidos.
O CIRCLE-seq permite a identificação reprodutível in vitro de sítios fora do alvo, enquanto o DISCOVER-Seq detecta a atividade fora do alvo in vivo, rastreando o recrutamento de proteínas de reparo de DNA. O sistema VIVO também fornece um método robusto para identificar sítios fora do alvo diretamente em organismos vivos. A aplicação dessas ferramentas revelou resultados mistos. Em alguns casos, como a edição CRISPR-Cas9 para anemia falciforme e o uso de nickases Cas9 pareadas para direcionamento do gene Hao1, nenhuma mutação fora do alvo foi detectada.
No entanto, outros estudos demonstram preocupações persistentes. Por exemplo, RNAs-guia levaram a mutações fora do alvo substanciais in vivo, e nickases pareadas, embora reduzissem os efeitos fora do alvo, ainda causavam grandes rearranjos no alvo. A minimização da atividade fora do alvo requer um design otimizado de RNA-guia, conforme demonstrado por Akcakaya et al., que alcançaram alta eficiência de edição no alvo sem efeitos fora do alvo detectáveis usando gRNAs cuidadosamente selecionados. Além disso, o uso de variantes de Cas9 de alta especificidade, como a Sniper-Cas9, e formatos de entrega transitória, como RNPs, podem reduzir ainda mais a atividade fora do alvo, limitando a duração e a atividade de Cas9 nas células. O aprimoramento contínuo das ferramentas de detecção e algoritmos de design será essencial para aumentar a segurança e a precisão das terapias baseadas em CRISPR.
Referências:
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Novel Therapies. Obesity Reviews 2025;0:e13978.
2. R James Stubbs et al. “Diet Composition and Energy Intake in Humans,”
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3. O Petricoul, A Nazarian, U Schuehly et al., “Pharmacokinetics
and Pharmacodynamics of Bimagrumab (BYM338),” Clinical
Pharmacokinetics 62, no. 1 (2023): 141–155.
4. SB Heymsfield, LA Coleman, R Miller, et al., “Effect of
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